quarta-feira, dezembro 03, 2008

Os políticos de Washington não leram Keynes...

Os conflitos entre economistas e políticos viraram uma constante na crise americana. Durante a semana, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, contestou a ajuda às montadoras em diversas entrevistas. Acabou sendo execrado por vários políticos de Washington. No entanto, Paulson está certo! O pacote geraria um dispêndio absurdo, para um resultado pífio. Elaborei a explicação abaixo para demonstrar o que acabo de enunciar.

Utilizei o modelo "demanda agregada/oferta agregada" para demonstrar o que ocorreu durante a grande depressão nos EUA, uma crise de parâmetros similares.

Começarei com uma função de produção determinando o produto em função do emprego:

Y = F(N)

De acordo com a teoria econômica, em mercados competitivos, a contratação de funcionários deve ocorrer até atingir o ponto em que o salário real se iguale ao produto marginal do trabalho. Se o contrato de trabalho derteminasse o nível de salário real, a questão estaria resolvida. Mas, como os trabalhadores estabelecem contratos utilizando salários nominais, teremos uma curva de oferta agregada em função da média do nível de preço agregado com a média de salários:

Y = S(P/W)

Pela lógica, nosso modelo mostra que o equilíbrio macroeconômico é determinado pela interseção da curva AS com a curva AD, que representa a demanda da economia. Então, teremos um diagrama como o abaixo:



Agora, suponha que um programa como o New Deal tenha elevado os salários nominais. Isso faria com que a curva AS se elevasse, o que nos levaria a um nível de preços maior e uma produção menor:



Foi assim que muitos economistas aprenderam essa lição de mercado, embora, muitos não entendam a verdadeira lógica por trás da teoria.

Então, qual é o fator crucial dessa história? Para que faça sentido, a curva de demanda agregada deve ser obrigatoriamente descendente. E por que deveria ser verdade?

Bom, em tempos normais, a curva AD é descendente. Mesmo porque, outros fatores, como alto nível de preços, aumentariam a demanda por dinheiro, algo que elevaria a taxa de juros, o que reduziria os consumo. (Em termos de IS-LM, alto P nos leva a um baixo M/P, o que desloca a LM para a esquerda)

No entanto, em condições de pouca liquidez, a taxa de juros do mercado não é afetada na margem pela oferta ou demanda de dinheiro. E como resultado, chegamos à conclusão de que a prerrogativa de uma curva AD descendente perde a validade. Sei que alguns economistas apelarão para o efeito Pigou. Mas, estarão esquecendo de levar em conta a dívida-deflação de Fisher. Por conseguinte, chegamos à conclusão de que, em condições de pouca liquidez, a curva AD está mais para ascendente do que para descendente.

E na década de 30, os EUA estavam com pouca liquidez, com a taxa de juros "3-month T-bills" em apenas 0,14%.

Levando a questão ao extremo, apenas para facilitar, terminaremos o modelo com uma curva AD vertical. Então, a figura ficaria assim:



Por conta disso, não existe efeito adverso para a produção com a elevação do salário.

Então, chegamos à conclusão de que o problema de liquidez teve implicações cruciais para o efeito de políticas como o NIRA. Os críticos ao New Deal assumiram, implicitamente, que a curva AD teve uma inclinação "normal", mesmo nos períodos mais graves de recessão. E isso não aconteceu!

Essa é a argumentação dos que defendem o programa de ajuda às montadoras.

No entanto, esse pensamento é falho. Não estão levando em conta que a demanda agregada depende de uma váriavel amorfa: confiança. Qualquer fator que ameace a oferta agregada no longo prazo, muito provavelmente, reduzirá a confiança da demanda agregada no curto prazo. Assim, a política deslocaria a curva AD, bem como a curva AS, em direções contrárias.

Por essa razão, o governo americano não deveria criar pacotes de ajuda às montadoras. Não faz sentido financiar perdas de um setor como esse. Mais uma vez, uma montanha de dinheiro do contribuinte americano será desperdiçada!

Aos amigos,
o último disco do Zeca Baleiro,

Marcos André Ceciliano

3 comentários:

Anônimo disse...

tu ainda tinhas dúvida de que eles não leram absolutamente nada, nem mesmo a contracapa? ;) abs

Anônimo disse...

parabéns!

Dafne Sartorio disse...

Viva John Keynes ! rs