Lindberg apoia Casula!
Aos amigos,
Aos amigos,postado por Marcos André Ceciliano às 11:34 5 comentários
A proposta de US$500 bilhões para salvar os bancos, anunciada pelo Tesouro Americano, foi elogiada por muitos analistas de Wall Street e classificada como triplo ganho. Na verdade, essa é uma proposta ganho-ganho-perda: os bancos ganham, os investidores ganham e o contribuinte perde. E não é difícil chegar a essa conclusão.
Segundo o plano, o tesouro americano espera solucionar a crise replicando os procedimentos arriscados do setor privado, com uma proposta altamente complexa, com poucos incentivos e pífia transparência. Sem falar que o patrimônio público será fortemente desalavancado.
A verdade sobre essa crise é que os bancos deixaram toda a economia vulnerável quando decidiram se alavancar. Utilizaram pouco capital próprio e se endividaram muito para comprar ativos de alto risco do mercado imobiliário. Para piorar, no decorrer do processo, ainda se utilizaram de instrumentos de alta complexidade, como obrigações de débito colateralizadas.
A projeção de alta compensação deu aos banqueiros incentivos para ignorar e subestimar o risco excessivo. Os bancos cometeram todos esses erros, alheios a qualquer fiscalização. Mesmo porque, a maior parte dessa negociação era financiada fora da folha de balanço.
Na teoria, o plano do governo Obama baseia-se em permitir que o mercado determine o preço dos ativos podres dos bancos, incluindo empréstimos para a compra de casas e derivativos desses empréstimos. Na verdade, o mercado não irá precificar os ativos, mas as opções desses ativos.
E o problema reside exatamente nesse ponto, por conta da inexistência de garantias vinculadas. Dessa forma, o plano do governo resume-se a absorver quase todas as perdas, uma vez que, os investidores privados superestimarão os ganhos potênciais.
Considere um ativo que tem 50% de chances de valer entre zero e US$ 400 em um ano. O valor médio desse ativo é de US$ 200. Sem levar em conta os juros, esse é o preço do ativo em um mercado competitivo. É quanto o ativo vale. Segundo o plano do secretário do Tesouro Americano, Timothy Geithner, o governo financiará 92% do dinheiro para a compra do ativo, mas espera receber apenas 50% de qualquer ganho, e absorverá quase todas as perdas.
Digamos que em uma das parcerias público-privadas, o Tesouro se comprometa a pagar US$ 300,00 pelo ativo. É 50% a mais do que ele realmente vale, e o banco estará mais do que feliz ao vendê-lo. Então, o parceiro privado coloca US$24, e o governo financia o resto: US$24 em “equity” mais US$252 em forma de empréstimo garantido.
Se acontecer de o valor real se tornar zero, o parceiro privado terá perdido US$24, e o governo terá perdido US$276. Se o valor real tornar-se US$400, o governo e o parceiro privado dividirão US$148, que restará depois que o empréstimo de US$252 for pago. Nesse cenário, o investidor privado mais do que triplica seu investimento de US$ 24. Enquanto o contribuinte terá arriscado US$ 276, para ganhar US$74.
Mesmo em um mercado imperfeito, não deveria existir a confusão entre o valor de um ativo e o valor da opção em alta desse ativo.
Mas, os americanos perderão muito mais do que sugerem esses cálculos, por conta de um efeito chamado seleção adversa. Segundo o plano, os bancos poderão escolher os ativos que desejam vender. Logo, escolherão os piores e, especialmente, aqueles que o mercado superestimar.
A única maneira de neutralizar esse efeito de "seleção adversa" é incorrer em muitas perdas. Com o governo absorvendo as perdas, não importa para o mercado se os bancos estarão "trapaceando" ao vender seus ativos mais depreciados, porque, o governo bancará o custo.
O problema principal dessa crise não é a falta de liquidez. Se o fosse, a solução seria fornecer os fundos sem garantias de empréstimos. A verdadeira questão é que os bancos fizeram maus empréstimos em uma bolha e foram altamente alavancados. Eles perderam o seu capital, e este capital tem de ser substituído.
Por essa razão, pagar o valor de mercado justo pelos ativos não funcionará. Os bancos só serão recapitalizados se o valor pago por esses ativos for superdimensionado. No entanto, fazê-lo, será o mesmo que transferir a perda para o estado. Em outras palavras, o plano de Geithner só funciona se o contribuiente perder muito.
Alguns americanos temem a nacionalização dos bancos. No entanto, essa opção deveria ser preferida ao plano de Geithner. Mesmo porque, a Federal Deposit Insurance Corporation já obteve o controle de bancos falidos em outros tempos e realizou um ótimo trabalho.
O que muitos conservadores não perceberam é que o plano de recuperação da administração Obama é pior do que o processo de nacionalização. É um capitalismo promíscuo, que privatiza os ganhos e socializa as perdas. É um tipo de paternalismo em que uma parte é beneficiada em detrimento de outra, que preserva os incentivos aos que criaram a crise.
Então, qual é o apelo de uma proposta como essa? Talvez, esse seja o tipo de solução à la Hegel que Wall Street ama: complexo e obscuro, permitindo transferências enormes de dinheiro saudável para os mercados financeiros.
No entanto, estamos prestes a enfrentar uma grave crise de confiança. Isso porque, quando os altos custos dos planos da administração Obama se tornarem aparentes, a confiança será diluída. Nesse momento, a tarefa de recriar um setor financeiro eficaz e ressuscitar a economia, será ainda mais difícil.
postado por Marcos André Ceciliano às 12:07 5 comentários
Está difícil sorrir, ficar alegre com acontecimentos cotidianos. Tenho olhado o mundo com um ceticismo tão grande que chega a ser assustador. Há quatro dias não consigo esquecer as palavras de uma jovem sonhadora, uma americana de classe média alta, que poderia ter escolhido os caminhos mais cômodos em seu mundo de privilégios, mas que, contrariando a tudo o que lhe foi definido por seu círculo social, juntou-se ao Movimento de Solidariedade Internacional, na Faixa de Gaza.
Sim! Estou falando de Rachel Corrie. Sua morte ficou famosa em 2003, quando de uma matéria no New York Times. Rachel foi assassinada pelo exército de Israel, por um operador de uma Caterpillar D9R, que estava sendo utilizada para demolir casas na cidade de Rafah.
Após o acontecido, muitos membros do Capitólio questionaram o porquê de uma jovem americana de 23 anos estar na Faixa de Gaza, em uma área tão perigosa que nem mesmo a imprensa se fazia presente.
Um vídeo de Rachel, aos 10 anos de idade, é a melhor resposta a essa pergunta:
Traduzi a fala para os que não entendem inglês:
Estou aqui por outras crianças.
Estou aqui porque me importo.
Estou aqui porque existem crianças sofrendo em todos os lugares e porque 40 mil pessoas morrem diariamente de fome.
Estou aqui porque a maior parte dessas pessoas são crianças.
Nós temos que entender que os pobres estão a nossa volta e nós os estamos ignorando.
Nós temos que entender que essas mortes podem ser evitadas.
Nós temos que entender que as pessoas dos países do terceiro mundo pensam, se preocupam, sorriem e choram exatamente como nós.
Nós temos que entender que eles são nós. E nós somos eles.
Meu sonho é acabar com a fome a partir do ano 2000.
Meu sonho é dar aos pobres uma chance.
Meu sonho é salvar 40 mil pessoas que morrem diariamente.
Meu sonho pode e se tornará realidade se todos nós olharmos para o futuro e enxergarmos a luz que brilha lá.
Rachel Corrie morreu na tentativa de impedir, pacificamente, a demolição de casas humildes em uma região pobre da Faixa de Gaza. Em uma entrevista a uma rede de TV local, pouco antes de morrer, questionou o apoio dos EUA ao exército de Israel e bradou ao povo americano uma frase muito forte: "this is your tax dollars at work".
Durante o ato que resultou em sua morte, suas únicas armas eram um megafone e a retórica de sua solidariedade. Ao perceber que estava sendo ignorada pelo operador da escavadeira, deitou-se no chão para impedir o avanço da máquina sobre as casas.
Segundo relatos, as ordens do comandante ao soldado que procedia a derrubada foram claras: "passe por cima de quem estiver no caminho". Rachel não acreditou na insensatez daquele ser humano, na imprudência de sua consciência. Foi massacrada pela máquina, que passou por seu corpo várias vezes.
Rachel Corrie, como milhares de palestinos, é mais uma vítima das atrocidades cometidas pelo criminoso governo de Israel. Muito pior, é mais uma vítima do descaso da comunidade internacional pelo assunto.
Espero que Barack Obama reveja o caso Corrie, que tenha uma postura mais decente que a do Congresso Americano. Mesmo porque, até hoje, nenhum soldado do exército de Israel respondeu pelo ocorrido.
Aos amigos,
o silêncio dos inocentes,
Marcos André Ceciliano
postado por Marcos André Ceciliano às 20:30 6 comentários
O grupo Votorantim, terceiro maior fabricante de celulose do país, está pagando muito caro pelo controle acionário de sua rival, a Aracruz Celulose. Ainda que o BNDES tenha financiado 40% do negócio, esqueceram de levar em conta o custo do mesmo para os acionistas minoritários.
Hoje, na Bolsa de São Paulo, as ações preferênciais da VCP, como é conhecida a empresa de celulose da Votorantin, caíram 10,40%, chegando a R$ 13,95. As preferências da Aracruz recuaram 12,77%, atingindo R$ 2,05.
Ontem, a VCP anunciou que realizará um aporte de R$ 2,71 na Aracruz, o que acarretará na tomada do controle acionário, que estava programado para ocorrer ano passado, antes da crise financeira. Nesse período, as duas empresas amargaram prejuízos substanciais por conta de operações cambiais ligadas a derivativos.
Não existem dúvidas de que a transação será onerosa aos acionistas preferências minoritários das duas empresas. E a razão para a perda de valor das PN's é simples: os investidores que possuem ações PN da VCP e da Aracruz, terão seus ativos diluídos quando estas forem convertidas em ações comuns da nova empresa. Para piorar, a VCP planeja listar a nova empresa no Novo Mercado, uma sessão da Bovespa que possui regras rígidas de governança corporativa e proíbe mais de uma classe de ações.
Em contrapartida, o acordo deve ser considerado um achado para as famílias Lorentzen e Safra, que receberão, em dinheiro, um preço por ação definido há 6 meses, antes dos prejuízos com derivativos.
A Arapar, controlada pela família Lorentzen, concordou em vender sua participação de 28% da Aracruz para a VCP. A mesma proposta foi enviada para a Arainvest, que detêm 28% das ações ordinárias da Aracruz e é controlada pela família Safra.
E o governo Lula? Quantas operações estranhas! Primeiro, o governo salvou o banco Votorantim. Agora, o BNDES financia 40% da compra da Aracruz e sai do negócio sem uma única cota de participação da nova empresa. Seria esse o nosso Bailout ao grupo Votorantim? Um tanto injusto para com o contribuinte, não acham?
Aos amigos,
fiquem longe do mercado,
Marcos André Ceciliano
postado por Marcos André Ceciliano às 16:05 5 comentários
No decorrer dos anos, existem muitos momentos que nos marcam profundamente. No entanto, raros são aqueles que conseguem resistir, em qualidade de detalhes, ao contínuo amadurecimento da consciência.
Lembro a primeira vez em que entrei no Palácio Tiradentes, sede do plenário da Alerj. Eu tinha 9 anos. Cruzei toda a platéia de mãos dadas com meu avô, vestia um terninho preto com uma gravata de seda vermelha. Não me assustei ao passar por todas aquelas pessoas. Nos sentamos em uma das primeiras fileiras. Era 24 de fevereiro de 1994. Nesse dia, assisti uma bonita e justa homenagem: meu tio, empresário do mercado financeiro na época, recebia o título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, concedido pelo Deputado Estadual Délio Leal.
Em 1998, meu tio, eleito Deputado Estadual, assumiu uma cadeira naquela casa. No ano seguinte, ingressei no Cap da UFRRJ. Meu professor de história era um petista histórico, que participou de diversos movimentos armados durante a ditadura. Nossa afinidade era inegável, devo a ele toda a paixão e curiosidade que desenvolvi pela matéria. Porém, foi justamente com esse professor que experimentei minha primeira liberdade crítica.
Poucos meses após o início do mandato, a vice-governadora Benedita abandonou o governo, por conta de insatisfações relativas a distribuição de cargos. Para fazer frente, a bancada do PT decidiu que votaria contra as propostas do governo que fossem encaminhadas à Alerj. Meu tio foi o único deputado que descumpriu a ordem do partido e votou com o governador em todos os projetos.
Essa atitude causou profunda irritação em muitos petistas, meu professor não foi excessão. Em uma discussão sobre política contemporânea e estratégia legislativa, ele aproveitou a oportunidade para criticar sua postura. Ao que não me contive e repliquei: "Não existe traição aqui. O mandato do deputado não é do partido ou da bancada do PT, e sim de 19.122 cidadãos que lhe confiaram o voto. Meu tio não deixará de votar projetos importantes para a população só para fazer pressão por cargos no governo. E eu tenho muito orgulho disso, para um deputado de primeiro mandato essa é uma atitude muito digna e corajosa."
Pelo sorriso de canto no rosto do meu professor, eu havia tocado no ponto certo. Ou seja, havia transposto a hipocrisia que nos rodeia e, dito algo que, de tão justo, era irrefutável. Eu sinto falta desse tempo. Sinto falta desse meu eu, de ter pensamentos puros e idealizados sobre a política. Nos últimos 10 anos, uma série de eventos dizimaram essa minha percepção.
Alfred Lord Tenysson, um dos mais incríveis poetas ingleses, escreveu certa vez: "Authority forgets a dying king". Nos últimos dias, tenho refletido bastante sobre essa frase. Ela é de uma verdade absurda e assustadora. É triste a constatação de que os traidores se vestem da postura e grandeza dos nobres. Infelizmente, não entendem o que realmente significa estar ali.
Aos amigos,
"apesar de você" do Chico,
Marcos André Ceciliano
postado por Marcos André Ceciliano às 13:38 1 comentários
No dia 20 de janeiro de 2009, quando Barack Obama assumir o governo americano, encontrará a pior situação econômica daquela nação desde a segunda guerra mundial. Nos últimos meses, as projeções dos principais índices macroeconômicos foram revisadas drasticamente, para baixo.
Muitos economistas acreditam que a taxa de desemprego possa atingir a marca de 10% no próximo ano; também estimam que a economia perca US$ 1 trilhão de sua capacidade total, o que significaria uma perda de US$ 12 mil na renda da família média americana.
Apesar das projeções assustadoras, a equipe de Obama ainda acredita no potencial de crescimento da economia no longo prazo. Segundo Summers, planejam investimentos estratégicos em saúde, educação e infraestrutura. Por conseguinte, esperam obter um ótimo retorno social, que minimizaria o efeito da perda de renda.
Existe uma dualidade interessante aqui. As decisões econômicas devem contemplar dois cenários para serem realmente eficazes: a criação dos empregos que os americanos precisam e o estabelecimento de um macroregulatório sustentável. Caso contrário, serão perigosamente deficientes.
A equipe econômica de Barack Obama já mostrou comprometimento para com essas condições. Essa é a justificativa para a instituição do "American Recovery and Reinvestment plan", que objetiva a criação de empregos e a garantia da saúde financeira no longo prazo.
As metas de criação de empregos já foram revisadas duas vezes. Agora, a equipe do novo presidente estima 3 milhões de novos empregos. Segundo Summers, mais de 80% destes seriam criados no setor privado. Daí, chegamos a uma interessante constatação: o plano de Obama não apresenta a criação de novos empregos públicos, apenas investimentos para o povo americano.
Recursos que serão transformados em novas salas de aula, laboratórios e bibliotecas para as crianças; que reduzirão a dependência americana frente ao petróleo, no incentivo de energias alternativas; e que colocarão milhares de americanos trabalhando na renovação de estradas, pontes e sistemas públicos de trânsito.
Alguns amigos economistas acreditam que para conseguir crescimento sustentável no longo prazo, o governo Obama deveria apenas preocupar-se em aumentar o consumo. No entanto, transformar o caos atual em uma questão tão simplista, seria, indubitavelmente, uma desculpa para permitir o esmagamento da classe média americana. Algo que o novo presidente americano parece não aceitar!
Aos amigos,
um feliz ano novo,
Marcos André Ceciliano
postado por Marcos André Ceciliano às 10:40 0 comentários
Com o corte de 0,75 p.p. anunciado na última terça-feira pelo Fed, muitas pessoas devem estar questionando se os mecanismos de intervenção do BC americano chegaram ao fim. Uma ótima pergunta! Obviamente, a próxima atuação da autoridade monetária não será através de cortes de juros. No entanto, ainda há muito o que o FED possa fazer.
O que acabo de enunciar está ratificado na seguinte passagem do press release do Fed:
"The Federal Reserve will employ all available tools to promote the resumption of sustainable economic growth and to preserve price stability. In particular, the Committee anticipates that weak economic conditions are likely to warrant exceptionally low levels of the federal funds rate for some time."
A frase "for some time" é estratégica, perfeita para garantir expectativas de juros baixos a longo prazo.
O próximo desafio do FED é derrubar a retórica da "estabilidade de preços". Na verdade, o FED nunca esteve comprometido com a estabilidade de preços, ao contrário do que a maioria possa imaginar. Ainda assim, a inflação durante os mandatos de Paul Volcker e Alan Greenspan sempre tiveram médias entre 2% e 3%. Prova disso é que, durante esse período, o FED poderia ter zerado a inflação se quisesse. Com a atual crise e a profunda redução nos juros, esse zero é uma possibilidade, sem falar do risco de ocorrer deflação continuada. Hoje, o FED precisa atuar para convencer as pessoas de que essa taxa voltará ao índice "normal", entre 2% e 3%.
Elaborei abaixo uma boa sugestão para o próximo press release do FED:
"Na presente circunstância, o comitê reconhece que seria desejável uma inflação moderada sobre o nível geral de preços de uma década, que precisa ser cerca de 30% maior do que o de hoje. Por conta disso, manteremos a postura da política monetária suficientemente parcimoniosa para atingir esse grau de inflação ao longo dos próximos dez anos.
Ou seja, ainda que o FED não possa reduzir a taxa de juros nominal, poderá atuar para a redução da real, incorrendo em um modesto aumento no índice inflacionário.
Alguns podem classificar esse ato como uma mudança radical na política monetária. No entanto, dado o enfraquecimento atual da economia, um pouco de radicalismo certamente geraria algum efeito positivo. Sinceramente, prefiro o FED comprometido com o target de uma inflação modesta, do que ver o governo americano desembolsando um trilhão em novos gastos. Por essa razão, a política monetária deve ser priorizada, não a fiscal. Porque, apenas dessa maneira, a economia retornará ao pleno emprego e voltará à trajetoria de crescimento sustentável sem onerar os futuros contribuintes americanos.
O abandono da "estabilidade de preços" é o equivalente moderno ao abandono do padrão ouro por Rossevelt. Mesmo porque, dentre todas as medidas tomadas por Rossevelt para tirar a economia da recessão, o abandono do padrão ouro foi a mais bem sucedida. Hoje, a política monetária americana não é guiada pelo ouro, ou pelo medo da inflação. Por isso, os norte-americanos devem esquecer esse medo, pelo menos por um tempo. É como Jim Tobin disse certa vez: existem coisas piores que a inflação, e os EUA está infestado delas.
Aos amigos,
o novo disco do The Verve,
Marcos André Cecilino
postado por Marcos André Ceciliano às 18:50 0 comentários
Os conflitos entre economistas e políticos viraram uma constante na crise americana. Durante a semana, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, contestou a ajuda às montadoras em diversas entrevistas. Acabou sendo execrado por vários políticos de Washington. No entanto, Paulson está certo! O pacote geraria um dispêndio absurdo, para um resultado pífio. Elaborei a explicação abaixo para demonstrar o que acabo de enunciar.
Utilizei o modelo "demanda agregada/oferta agregada" para demonstrar o que ocorreu durante a grande depressão nos EUA, uma crise de parâmetros similares.
Começarei com uma função de produção determinando o produto em função do emprego:
Y = F(N)
De acordo com a teoria econômica, em mercados competitivos, a contratação de funcionários deve ocorrer até atingir o ponto em que o salário real se iguale ao produto marginal do trabalho. Se o contrato de trabalho derteminasse o nível de salário real, a questão estaria resolvida. Mas, como os trabalhadores estabelecem contratos utilizando salários nominais, teremos uma curva de oferta agregada em função da média do nível de preço agregado com a média de salários:
Y = S(P/W)
Pela lógica, nosso modelo mostra que o equilíbrio macroeconômico é determinado pela interseção da curva AS com a curva AD, que representa a demanda da economia. Então, teremos um diagrama como o abaixo:
Agora, suponha que um programa como o New Deal tenha elevado os salários nominais. Isso faria com que a curva AS se elevasse, o que nos levaria a um nível de preços maior e uma produção menor:
Foi assim que muitos economistas aprenderam essa lição de mercado, embora, muitos não entendam a verdadeira lógica por trás da teoria.
Então, qual é o fator crucial dessa história? Para que faça sentido, a curva de demanda agregada deve ser obrigatoriamente descendente. E por que deveria ser verdade?
Bom, em tempos normais, a curva AD é descendente. Mesmo porque, outros fatores, como alto nível de preços, aumentariam a demanda por dinheiro, algo que elevaria a taxa de juros, o que reduziria os consumo. (Em termos de IS-LM, alto P nos leva a um baixo M/P, o que desloca a LM para a esquerda)
No entanto, em condições de pouca liquidez, a taxa de juros do mercado não é afetada na margem pela oferta ou demanda de dinheiro. E como resultado, chegamos à conclusão de que a prerrogativa de uma curva AD descendente perde a validade. Sei que alguns economistas apelarão para o efeito Pigou. Mas, estarão esquecendo de levar em conta a dívida-deflação de Fisher. Por conseguinte, chegamos à conclusão de que, em condições de pouca liquidez, a curva AD está mais para ascendente do que para descendente.
E na década de 30, os EUA estavam com pouca liquidez, com a taxa de juros "3-month T-bills" em apenas 0,14%.
Levando a questão ao extremo, apenas para facilitar, terminaremos o modelo com uma curva AD vertical. Então, a figura ficaria assim:
Por conta disso, não existe efeito adverso para a produção com a elevação do salário.
Então, chegamos à conclusão de que o problema de liquidez teve implicações cruciais para o efeito de políticas como o NIRA. Os críticos ao New Deal assumiram, implicitamente, que a curva AD teve uma inclinação "normal", mesmo nos períodos mais graves de recessão. E isso não aconteceu!
Essa é a argumentação dos que defendem o programa de ajuda às montadoras.
No entanto, esse pensamento é falho. Não estão levando em conta que a demanda agregada depende de uma váriavel amorfa: confiança. Qualquer fator que ameace a oferta agregada no longo prazo, muito provavelmente, reduzirá a confiança da demanda agregada no curto prazo. Assim, a política deslocaria a curva AD, bem como a curva AS, em direções contrárias.
Por essa razão, o governo americano não deveria criar pacotes de ajuda às montadoras. Não faz sentido financiar perdas de um setor como esse. Mais uma vez, uma montanha de dinheiro do contribuinte americano será desperdiçada!
Aos amigos,
o último disco do Zeca Baleiro,
Marcos André Ceciliano
postado por Marcos André Ceciliano às 23:05 3 comentários

Prefeitura sem prefeito
Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito.
Por não ter literatura,
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém, mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.
Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.
Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz,
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.
O eterno poeta,
Patativa do Assaré.
postado por Marcos André Ceciliano às 11:08 2 comentários
Não é fácil chegar a um alto cargo econômico em Washington, disso ninguém duvida. E não estou falando dos secretários de comércio e trabalho, que praticamente desapareceram desde o início da crise subprime. Falo de Ben Bernanke e Hank Paulson, que após uma semana de muitas discussões, apresentaram seu melhor plano para salvar Fannie Mae e Freddie Mac. E quem gostou? Ninguém. (Meu artigo anterior explica o plano)
Sem dúvida, os dois economistas não formam uma dupla óbvia. Primeiro, lá está Bernanke, o acadêmico que virou presidente do FED pelas vias de Princeton. Do outro lado, Paulson, o banqueiro que virou secretário do tesouro através da Goldman Sachs. Caminhos bem diferentes.
No entanto, eles tem algo em comum: pragmatismo. Eles encaram um problema de frente e se dedicam a resolvê-lo. Pelo bem da economia e para agradar a seus partidos políticos. Porém, o pragmatismo deles anda fugindo do que rege o senso econômico comum.
Alguns democratas acham que o governo está financiando o passeio dos ricos. No mesmo sentido, republicanos denunciam que o governo Bush virou socialista. Ambos os lados estão querendo mostrar aos eleitores que são conscientes, já pensando nas eleições de novembro, se recusando a dar a Bernanke e Paulson um cheque em branco. O problema, como Paulson corretamente explicou, é que um cheque em branco é a melhor proteção em tempos de incerteza. As perguntas que não querem calar são: o pragmatismo de Paulson e Bernanke vencerá? Deveria?
Aos amigos,
a falta de senso de meus detratores,
Marcos André Ceciliano
postado por Marcos André Ceciliano às 19:32 6 comentários