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sexta-feira, abril 14, 2017

Pagamento Antecipado de ICMS

O Estado do Rio de Janeiro está prestes a viver o pior momento da sua crise financeira, marcada por bloqueios semanais nas contas públicas, exigências de duodécimos e quedas de arrecadação.

Segundo estimativas do Palácio Laranjeiras, caso não seja aprovado imediatamente o pacote de ajuda aos estados no Congresso Nacional, não haverá recursos para o pagamento da folha dos policiais militares em maio.

Merece destaque o fato de que a Polícia Militar, pela importância da segurança pública, foi a única categoria de servidores que até o momento não teve o salário parcelado. Recebem com atrasos, mas dentro do mês de vencimento. 

Privilegiá-los, em detrimento das demais categorias, foi a maneira que o Governo encontrou para evitar caos semelhante ao do Espirito Santo.

Muito embora o STF tenha declarado recentemente a inconstitucionalidade da greve de policiais, o Governo acredita que tal impedimento jurídico será incapaz de conter movimentos grevistas. Sem a adimplência do pagamento de maio, certamente teremos graves problemas na segurança pública.

A esperança que se tinha, logo após a alienação da CEDAE, era de que a aprovação do pacote de ajuda aos estados tramitasse rapidamente em Brasília. Porém, ninguém contava com a divulgação da delação da Odebrecht na semana corrente, que envolveu mais de 1/3 dos parlamentares federais. Por esse motivo, hoje a palavra de ordem na Alerj é encontrar uma forma de arrecadar rápido os valores necessários ao pagamento da folha de maio.

Nesse sentido, o jornal O Globo dessa quinta-feira, 13/04/2017, traz matéria com o atual Secretário de Governo do Estado, com detalhes sobre as alternativas urgentes para o aumento de arrecadação. Foram citadas enfaticamente a concessão de linhas intermunicipais e a securitização da dívida ativa, matérias de trato extremamente complicado e de viés inconstitucional para o segundo caso.

Explorarei abaixo a terceira opção, proposta pelo Deputado André Ceciliano, que versa sobre autorização para o recolhimento antecipado de ICMS, com correção posterior, até o momento de uso do crédito pelo contribuinte.

De início, há de se exaltar a constitucionalidade do projeto, conforme demonstra o § 7o, do artigo 150, da CF88, que reproduzo abaixo:

§ 7º A lei poderá atribuir a sujeito passivo de obrigação tributária a condição de responsável pelo pagamento de imposto ou contribuição, cujo fato gerador deva ocorrer posteriormente, assegurada a imediata e preferencial restituição da quantia paga, caso não se realize o fato gerador presumido. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 3, de 1993) 

A pergunta capital é: o que ganhará o contribuinte que antecipar o pagamento do tributo, de fato gerador posterior, que pode nem vir a acontecer. A resposta é simples: o valor será corrigido a taxa SELIC, desde a data do recolhimento, utilizando como referência o inciso I, do artigo 173, do decreto estadual 5/1975:

I - juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema de Liquidação e Custódia - SELIC - para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o último dia do mês anterior ao do pagamento, e de 1% (um por cento) relativamente ao mês em que o pagamento estiver sendo efetuado

Ou seja, não há qualquer concessão de desconto ao valor do tributo, como sinalizou a reportagem. Apenas a correção dos valores pagos antecipadamente, corrigidos a mesma taxa do juro de mora aplicada ao contribuinte quando da inadimplência. Sugestão razoável e isonômica.

O objetivo do projeto é elevar a arrecadação do Estado a curto prazo, oferecendo a rentabilidade SELIC ao contribuinte que tem certeza da incidência futura do imposto, que está com caixa disponível, e que é remunerado com rentabilidade inferior a SELIC. Vale esclarecer que a correção é apenas a título de crédito. Ou seja, não gerará despesa ao Estado, significando mera renuncia fiscal sobre o valor corrigido, convertido em crédito.

Para não desestabilizar a arrecadação média futura, o projeto limitará os valores a serem antecipados em 20% do total apurado pelo contribuinte no exercício anterior (2016). Busca-se evitar, portanto, profundo desequilíbrio na arrecadação dos meses posteriores. O autor estima que o programa, sendo utilizado pelos maiores contribuintes do Estado, promoverá queda de arrecadação no valor de 5% nos meses seguintes.

O projeto também determina que o Executivo será responsável por regulamentar e pactuar com os contribuintes, o que deve ser feito através da SEFAZ/RJ.

Agora é aguardar que o Governo apresente o projeto a Alerj, em regime de urgência, como se fosse seu. O Estado do Rio de Janeiro aguarda!

quarta-feira, novembro 16, 2016

O Pacote do Governador em Detalhes...

Hoje a Assembléia Legislativa do Rio amanheceu gradeada, cercada, completamente entrincheirada, como um quartel. Todo o perímetro do Palácio Tiradentes foi esvaziado e verifica-se grande aparato policial no entorno.

A restrição de acesso ao local foi tão abrangente que obrigou os transeuntes a realizar o translado entre a Praça XV e a Av. Primeiro de Março pelas ruas laterais.


A justificativa para todo esse aparato militar é a pauta da casa, que começa a discutir hoje, às 15h, o pacote de medidas enviado pelo Governador Pezão.

Seguem abaixo os projetos selecionados pela mesa diretora, com a data na qual serão apreciados, tendo sido excepcionada do calendário a mensagem já rejeitada:

2241/2016 - Alíquota provisória no Rioprevidência, com duração de quatro quadrimestres. 16% de ativos e inativos, 32% patronal e 30% de inativos isentos.
* Devolvido pela Alerj na quarta-feira (09/11). Não será votado.

Pauta de Quarta-feira, 16/11/2016

2260/2016 - Reduz em 30% o salário do governador, que passa de R$ 21.868,14 para R$ 15.307,69. Reduz na mesma proporção salário do vice, secretários e subsecretários. A Comissão de Orçamento da Alerj incluiu um artigo que impede a acumulação de vencimentos, acima do teto estadual, de servidores cedidos de outros órgãos que ocupem esses cargos.
* Projeto com efeito positivo.

2249/2016 - Reduz o que se considera 'pagamento de pequeno valor'. Em dívidas do Estado com pessoas ou empresas, pagamentos acima desse montante podem ser pagos com precatório (reconhecimento de dívida). Abaixo, devem ser pagos em espécie. Atualmente esse limite é de 40 salários mínimos. Governo propõe baixar para 15.
* Projeto com efeito positivo.

Pauta de Quinta-feira, 17/11/2016

2240/2016 - Mudanças no Rioprevidência. 7,5% da receita do DUDA para o fundo. Aumento da alíquota dos servidores de 11% para 14% dentro de 90 dias. Aumento da contribuição patronal de 22% para 28%. Poderes passam a ser responsáveis pelo pagamento dessa parte, que contará como despesa de pessoal. No caso da contribuição patronal, aumento será escalonado até 2023.

2239/2016 - Extingue o CEPERJ. Economia de R$ 3,2 milhões.
* Já foi votado em 24/02, não pode ser votado novamente (Art. 90 do Regimento)

Pauta de terça-feira, 22/11/2016

2238/2016 - Extingue o Instituto Estadual Engenharia e Arquitetura (IEEA). Economia de R$ 1,1 milhão.

2237/2016 - Extingue o Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (IASERJ). Economia de R$ 811 mil.

Pauta de Quarta-feira, 23/11/2016

2235/2016 - Extingue o Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj). Economia de R$ 1,5 milhão

2236/2016 - Extingue a Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Fiperj). Economia de R$ 1,6 milhão
* Já foi votado em 24/02, não pode ser votado novamente (Art. 90 do Regimento)

2242/2016 - Aumento de ICMS:

18% de alíquota para quem gasta até 200 Kilowatts/hora por mês. Antes esse limite era 300 KW. 27% para quem gasta acima de 200. Mais uma vez, o limite era 300. Na prática, quem gasta entre 200 e 300 terá um aumento de 9%.

Serviços de comunicação - aumenta de 26% para 28%
Operações com gasolina carburante - de 30% para 32%
Cerveja - de 17% para 18%
Refrigerantes - de 16% para 17%.

*Em todos os casos de aumento de ICMS, a alíquota só é reajustada 90 dias após a entrada em vigor da lei.

2243/2016 - Cria modelo de intimação eletrônica para cobranças da Fazenda Estadual.
* Proposta com efeito positivo

2246/2016 - Acaba com o programa Renda Melhor e Renda Melhor Jovem

2245/2016 - Adia para 2020 aumentos salariais aprovados em 2014 e que entrariam em vigor em 2017 ou 2018.

Pauta de Quinta-feira, 24/11/2016

PLC 37/2016 - Veda qualquer anistia a devedores de impostos por dez anos.
* Proposta com efeito positivo

2233/2016 - Extingue a fundação Leão XIII. Estrutura passa para Secretaria de Direitos Humanos ou outra que venha substituí-la. Economia prevista de R$ 2,5 milhões
* Já foi votado em 24/02, não pode ser votado novamente (Art. 90 do Regimento)

Pauta de terça-feira, 29/11/2016

PLC 35/2016 - Limite de crescimento da despesa de pessoal dos poderes está limitado a 70% do crescimento da RCL.

PLC 36/2016 - 40% das receitas de Fundos estaduais e 70% do superávit poderá ser usado para pagar a previdência dos órgãos a eles vinculados. Em caso de fundos ligados ao Executivo, poderá ser para todo o Estado. São 12 fundos, como Fundo da Alerj, do TCE, Funesbom (Bombeiros), Fundo da Polícia Civil, entre outros.
* Proposta com efeito positivo

Projeto de Lei Complementar 34/2016 - Adequação dos repasse de duodécimos à previsão da Receita Corrente Líquida. Elaboração dos orçamentos dos poderes conterá limites percentuais em relação a RCL, a partir de 2018.

Pauta de Quarta-feira, 30/11/2016

2234/2016 - Extingue a Suderj. Transfere para Secretaria de Esporte. Economia de R$ 1,4 milhão.
* Já foi votado em 24/02, não pode ser votado novamente (Art. 90 do Regimento)

Pauta de Dezembro

2244/2016 - Extingue adicional por tempo de serviço para todos os servidores, civis e militares.

2247/2016 - Muda cobrança nas barcas. Moradores de Paquetá e Ilha Grande passam a Pagar. Dá à Agetransp poder de estipular uma tarifa turística diferenciada.

2248/2016 - Limita o Bilhete Único

quarta-feira, novembro 09, 2016

Manifestações e o Pacote do Governo do Rio.

Antes de adentrar na questão do pacote de projetos enviado pelo Poder Executivo a Alerj, devemos condenar com veemência a invasão e a destruição do patrimônio público no Palácio Tiradentes. Foi com grande tristeza que assistimos a adultos pisoteando as mesas históricas do plenário, e sentados na moldura do grande quadro de Eliseu Visconti, que representa a assinatura da primeira Constituição Republicana, em 1891.

Absurda também foi a destruição da sala da vice-presidência, bem como a agressão ao Dep. Wagner Montes. Não há nada que justifique tais ações, absolutamente incompatíveis ao estado democrático de direito. O parlamento é a expressão maior da sociedade e não pode ser coagido, ainda mais por meios violentos.


Muito embora a pressão pela rejeição das mensagens seja legítima, oportuna e desejada, não deve se dar através de manifestações violentas e anti-democráticas. Parafraseio Paulo Freire para afirmar que situações como essa só podem ser combatidas através da palavra, do trabalho e da ação-reflexão.

No que tange ao conteúdo do pacote enviado a Alerj, não passa de erro estratégico-político do Executivo. Certo é que não resolverá a situação econômica do Estado, mas será eficiente em garantir um cenário favorável a pedidos de impeachment do Governador. Lembrando que assistimos movimento similar no plano federal, culminando na destituição da Presidenta Dilma Rousseff, sem qualquer crime de responsabilidade.

Onde erra o governador?

Ainda que a situação econômica do Rio tenha ultrapassado a alçada de governo, virando uma questão de Estado, medidas desumanas não podem ser impostas a população. Não há qualquer solução nesse caminho, apenas acirramento de ânimos e aumento da crise.

A mensagem 2241/16, que foi devolvida pela Alerj na data de hoje, é o maior exemplo da falta de orientação do Poder Executivo. Sugerir um corte de 30% no benefício de aposentados que recebem valores de até R$ 5 mil não é apenas imoral, mas humanamente cruel. Estamos falando de pessoas em sua última idade, geralmente com gastos elevados em remédios e necessidade contínua de assistência médica.

Outro erro crasso é acabar com o subsídio ao bilhete único, programa que serve economicamente a equalização das oportunidades de emprego na capital. Uma medida que impactará 5 milhões de cadastrados, e prejudicará principalmente moradores da Baixa Fluminense, Zona Oeste, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Guaratiba, que serão preteridos em vagas de emprego pelo alto custo do transporte.

Em resumo, prejudicar o emprego e retirar a renda dos mais pobres não trará qualquer benefício a economia do Estado do Rio de Janeiro, uma vez que o poder de compra das classes mais baixas é o único que se converte automaticamente em consumo, aquecendo o comércio e o setor de serviços.

A literatura econômica é clara em demonstrar que o aumento de impostos num momento de recessão pode não gerar qualquer aumento de arrecadação, mas tão somente ampliar o desemprego e a desaceleração da economia. Ou seja, a solução da crise não passa ao largo da redução do fundo de combate à pobreza, por exemplo, que arrecadará R$ 4 bilhões em 2016; valor que corresponde a 5% do orçamento do exercício.

Nesse cenário, é absurdo que haja uma proposta de corte do aluguel social, cujo gasto anual nesse exercício será de R$ 60 milhões; valor que corresponde a 5% do fundo de habitação social, que, por lei, é composto por 10% do fundo de combate à pobreza, cuja previsão de arrecadação em 2016 é de R$ 400 milhões.

Enumerarei abaixo algumas sugestões de cortes e recuperação de receitas ao Governador, que devem ser apresentadas nos próximos dias nas sessões da Alerj pelos Deputados:

- Limitar os gastos de publicidade do governo, que já somam R$ 40 milhões em 2016, para R$ 6 milhões (0,01% do orçamento estimado), apenas para notícias de epidemias e assuntos de calamidades. Já existe proposta do Deputado Wanderson Nogueira nesse sentido.

- Devolver todos os imóveis alugados pelo Estado, que em 2016 já somam despesas pagas acima de R$ 75 milhões.

- Devolver todas as vagas de carros do Poder Executivo no Edifício Menezes Cortês, que em 2016 já somam despesas pagas acima de R$ 6 milhões.

- Devolver todos os servidores cedidos de outros poderes ou entes da federação, que em 2016 já somam despesas pagas acima de R$ 32 milhões.

- Acabar com a impressão do Diário Oficial, que em 2016 gerou um gasto de R$ 11 milhões. Hoje toda a população e repartições tem acesso ao Diário Oficial pela Internet.

- Cobrar a dívida da Pepsi e da Coca-Cola em impostos, de R$ 280 milhões. Importante lembrar que, apesar de devedoras, essas empresas foram beneficiadas em R$ 337 milhões em renúncia fiscal. Reclamação apresentada pelo Deputado Marcelo Freixo.

- Cobrar a dívida da Ambev em impostos, de R$ 527 milhões. Importante lembrar que, apesar de devedora, a Ambev foi beneficiada em renúncia fiscal em R$ 252 milhões, de 2008 a 2013. Reclamação apresentada pelo Deputado Marcelo Freixo.

- Cassação do veto ao PL 1046/2015, de autoria do Dep. André Ceciliano, que cria taxa de 1 (uma) Ufir sobre o barril de petróleo produzido e o m3 de gás equivalente, para fins de controle ambiental da atividade. A receita prevista é de R$ 1,8 bilhão/ano, valor próximo a 10% do déficit do ano corrente.

Na temática das isenções fiscais, é complicado formar opinião sem levar em consideração a guerra fiscal entre os entes da federação. Os valores concedidos são elevados, mas a pergunta que reside é se essas empresas permaneceriam no Estado com a inexistência da renúncia fiscal. Nesse sentido, os Estados aguardam ansiosos o texto da súmula vinculante 69, que tenta por fim a essa situação esdrúxula, de todos contra todos, com apenas um vencedor: as empresas.

Existem muitas outras contas a serem analisadas, cargos comissionados a serem reduzidos e secretarias a serem fundidas. Mas, o Governador precisa cercar-se de pessoas interessadas em dar respostas resolutivas a crise, independente do atendimento aos interesses firmados por grupos empresariais durante a campanha eleitoral.

Caso contrário, seu destino será idêntico ao da Presidenta Dilma Rousseff, e o feito impetrado contra o seu mandato terá o mesmo apoio midiático e ampla desinformação da população. Conhecendo um pouco da biografia do Governador, e da sua preocupação com o bem social, seria lastimável se algo assim ocorresse.

sábado, abril 16, 2016

A queda de Dilma em Meio a Uma Tempestade Perfeita.

Após passar o sábado fazendo contas, e estabelecendo correlações de votos entre bancadas e partidos, não tenho a menor dúvida de que o relatório pró-impeachment, este que visa autorizar o julgamento da Presidenta Dilma Rousseff no Senado Federal, será aprovado amanhã na Câmara dos Deputados.

Ainda que o PT tenha eleito a maior bancada partidária na Câmara, com 70 deputados, não existem vantagens numéricas a rejeição do relatório. É uma situação de difícil explicação, que demanda vasta análise conjuntural. Ainda que, com o apoio de PCdoB e PSOL, o Planalto já tenha 95 dos 172 votos necessários a impedir o prosseguimento do processo; e que, sejam necessários apenas 77 dos 418 votos restantes, meros 18,42%, tudo indica que o Governo não será bem sucedido nessa empreitada.

Esse seria um cenário inimaginável há dois anos, quando ainda havia a predominância do partido do governo sobre os demais, do poder de nomeações da máquina, e do histórico de relacionamento de uma década com a base.

Ainda que o governo precise de muito pouco (77 de 418), e de que não haja crime de responsabilidade nos atos da Presidenta, por tudo o que foi dito nos últimos dias, o Planalto não passará de 138 votos no domingo. Ou seja, conseguirá angariar apenas 43 votos dos 418 restantes. Será uma derrota política acachapante.

Para compreender essa reviravolta nacional, e a desgraça do partido que comandou o progresso da nação nos últimos 12 anos, é necessário atentarmos a conjuntura política, econômica e institucional, que passo a expor abaixo:

- A Crise Econômica

Essa é a condição sine qua non para a derrubada da Presidenta.

Independente do que publica a grande mídia, nossa crise não tem qualquer relação com a capacidade administrativa da Presidenta, ou com o aumento dos gastos do Governo Central. Verdade seja dita, os gastos do governo com pessoal e investimento cresceram na medida da arrecadação entre 2003 e 2013.

Porém, não contava o Governo com o grave cenário macroeconômico externo de 2014, com 03 (três) fatores cruciais para a crise arrecadatória: a queda do preço petróleo, cujo barril brent passou de $ 114. em 06/14, para $ 34,74, em 01/16; o fim do superciclo das commodities. com o recuo dos preços de alimentos e minérios nas bolsas de todo o mundo; bem como a retração da China. maior parceiro comercial do país, que registrou em 2015 seu pior PIB em 25 anos.

Essa é a origem da crise econômica do nosso país, que não é abordada seriamente pelos jornais, em razão dos motivos que esclarecerei no próximo tópico.

- Campanha Midiática Negativa

Não é novidade que a imprensa nacional há muito anseia pela saída do PT do Governo. Sua insatisfação é latente, e passa por várias questões, como a mudança da metodologia de cálculo da participação das empresas de televisão na verba de publicidade do Governo Federal. Lembrando inclusive que essa foi a principal motivação para a caça midiática do Ministro José Dirceu em 2005.

Somado a isso, podemos citar também a fúria das revistas paulistas que hoje só existem graças as verbas do Governo tucano, uma vez que o Governo Federal encerrou os contratos de impressão de material escolar com essas empresas.

Além do impacto em suas receitas, faz-se importante rememorar que a grande mídia brasileira encontra-se na mão de apenas 06 (seis) famílias, que possuem alinhamento histórico e filiação ideológica aos partidos conservadores paulistas.

O que essas empresas perceberam nos últimos anos foi a crescente perda da importância dos seus meios na configuração do quadro político nacional, principalmente por conta da ascensão do PT em cada número cada vez maior em estados e municípios.

- O Crescimento do PT nas Últimas Eleições

Incomodou muito aos diversos partidos da base aliada o crescimento do PT no número de prefeituras em 2012. Enquanto PMDB e PSDB, reduziram cadeiras. respectivamente, em 18,39% e 12,61%, o PT aumentou o número de prefeitos em 11,40%.

Sem falar que o partido possui, desde 2002, a maior taxa de crescimento acumulado entre todos os partidos. Na eleição de governadores de 2014, já sobre a pressão das manifestações nacionais, o PT ainda conseguiu manter o mesmo número de Estados governados, enquanto o PMDB cresceu 40% e o PSDB encolheu 37,5%.

Esse fator de crescimento incomodou os partidos com maiores bancadas no Congresso Nacional, que passaram a assistir a influência do PT em todos os tipos de disputas eleitorais, quase sempre promovendo a vitória de candidatos de partidos novos, em detrimento da tradicional base.

O que foi considerado corretamente por determinados caciques como uma política sistemática de enfraquecimento de partidos maiores, visando o aumento da parcelarização partidária, o que permitiria um controle menos estressante da base pelo PT.

- As tentativas de enfraquecimento político do PMDB

O Governo nos últimos anos, sob o comando da Presidenta Dilma, empreendeu várias ações para enfraquecer o maior partido garantidor da governabilidade. Os palanques estaduais foram a maior expressão desse movimento, que pode ser melhor evidenciado no apoio aos irmãos Gomes, em detrimento de Eunício de Oliveira no Ceará; e no lançamento da Campanha de Lindberg Farias no Rio de Janeiro, único Estado relevante governado pelo PMDB.

Há também o entendimento de que a indicação de Kassab (PSD) para o Ministério das Cidades e Cid Gomes (PROS) para o Ministério da Educação, pastas que somam R$ 200 bilhões do orçamento federal, foram outra afronta velada e clara estratégia de enfraquecimento do PMDB.

Diversas ações desse tipo fizeram com que muitos candidatos da base saíssem das eleições de 2014 com rancor, o que explica em grande parte a perda de apoio da Presidenta no Congresso Nacional.

- A eleição de um Congresso Restritivo de Direitos em 2014

As manifestações de junho de 2013 deixaram uma marca significativa no país. Apesar da eficiência do governo em promover a inclusão social e ampliar as garantias de direitos a parcela mais vulnerável da população, o que se viu foram diversos grupos políticos e apolíticos tomando as ruas para pleitear demandas genéricas, num movimento que ficou marcado pela pluralidade e pouca clareza na pauta de reivindicações.

Uma nova geração de jovens, que não viveu o período inflacionário da década de 80 e a miséria do segundo mandato de FHC, foram as ruas insatisfeitos, gritando palavras de ordem contra todas as esferas de governo. Haviam também algumas questões disfarçadas, em relação a Copa do Mundo, traduzidas pelo sentimento de que as classes B, C e D não teriam condições financeiras de ir aos estádios assistir os jogos.

O principal desdobramento desse movimento, organizado disfarçadamente por movimentos de Direita, foi a eleição de um Congresso restritivo de Direitos em 2014 que, de tão retrógrado, pode ser comparado em conservadorismo ao de 1964; com gravoso aumento no número de parlamentares religiosos, ruralistas e militares.

Números do Diap mostram que a quantidade de Deputados ligados a causas sociais caiu drasticamente. A frente sindical, por exemplo, caiu de 83 para 46 parlamentares. Enquanto a bancada evangélica, apesar de manter-se numericamente, ganhou nomes de peso das igrejas; e a bancada da bala, um reforço de 30% no número de militares eleitos.

- A Derrota de Chinaglia para a Presidência da Câmara

A eleição de Eduardo Cunha no início de Janeiro, numa briga velada com a Presidenta Dilma, já havia demonstrado o quão dura seria essa legislativa: o PT, maior bancada individual, ficou sem qualquer cargo na mesa diretora ou na Presidência de qualquer comissão relevante. 

A interlocução de Michel Temer também mostrou-se ineficiente naquele período, o que nos leva a questionar se a estratégia de sucessão já não se fazia presente naquele momento. Fato é que a escolha de Cunha naquela votação foi determinante a todas as ocorrências posteriores, culminando na admissibilidade do pedido de Impeachment da Presidenta, na aprovação de uma reforma política às avessas, e em todas as manobras regimentais verificadas pela casa.

Cunha durante todo esse processo mostrou-se um grande articulador, brilhante conhecedor do regimento, e com capacidade de manter aliados fiéis tanto na base e quanto na oposição. Nem mesmo as diversas citações em delações foram capazes de abalar sua dominância sobre a classe política.

- Incapacidade de Conter a Lava-Jato

Outro fator que pesou na relação da Presidenta com sua base de sustentação no Congresso Nacional foi o avanço da Operação Lava-Jato. Com grande quantidade de políticos envolvidos, citados, delatados e operações numerosas da Polícia Federal, com forte repercussão da mídia, o sentimento no Congresso foi de que a Presidenta não fez qualquer esforço para reduzir a velocidade e/ou efeitos da operação.

Não existem dúvidas de que o PT foi extremamente importante na atual independência do MPF, bem como no aumento da autonomia e capacidade técnica da Polícia Federal. De forma que, fica cada dia mais claro que o governo petista não controla essas instituições, nem interfere sobremaneira no seu funcionamento.

Ou seja, os parlamentares investigados são descrentes na capacidade da Presidenta blindar-lhes nesse processo. Imaginam, pelo histórico pregresso, que não há outra saída que não sua substituição por Michel Temer. Esperam, possivelmente, que a situação se reverta com nomeações mais alinhadas a base.

- A Recondução de Janot

Seguindo a tradição nos mandatos do PT, a Presidenta Dilma reconduziu Rodrigo Janot, o mais votado na eleição da Associação Nacional de Procuradores, ao cargo de Procurador Geral da República em 2015.

Como é sabido por todos, Cunha e Janot traçaram diversas batalhas nos últimos meses, desde que fora iniciada uma investigação contra o Presidente da Câmara. A recondução de Janot certamente foi vista como o evento final de qualquer possibilidade de reaproximação entre Cunha e o Planalto.

- Insatisfação dos Empresários

Não é novidade que o empresariado há muito questiona as políticas do Governo Dilma em relação ao reajuste do salário mínimo acima da inflação, que elevou os custos de produção; bem como o dispêndio do Governo Central com gastos sociais.

O primeiro recado veio quando do lançamento da política de desoneração da folha. Enquanto Dilma acreditava que a ação serviria para aumentar o investimento e o emprego, a classe empresarial apenas apropriou-se do valor não desembolsado na forma de resultado. Nem mesmo os esforços de segurar o preço dos combustíveis e da energia foram reconhecidos nesse processo.

A verdade é que o empresariado sentiu a desaceleração da economia, oriunda do cenário mundial, com o agravante do peso da Lava-Jato na principal empresa do índice Bovespa, do fim do ciclo de obras em projetos de refinarias, transposição do Rio São Francisco e construção de plataformas de petróleo.

A postura da FIESP, que sempre foi favorável ao impeachment, acabou sendo seguida por outras Federações, como a FIRJAN, que não acreditou na capacidade da Presidenta retomar o crescimento no meio a tanta instabilidade política. Sem falar das pautas-bomba lançadas por Cunha, que acabaram por dizimar todo o esforço do Governo na redução dos gastos públicos.

- Insatisfação do Sistema Bancário

A Presidenta lutou bravamente contra a morosidade do capital financeiro em 2012, forçando a baixa dos juros de mercado, utilizando até mesmo os Bancos Públicos como instrumento nesse processo. Sua intenção era fomentar os investimentos na indústria, mas o resultado não foi positivo. Esqueceu a Presidenta que os bancos brasileiros possuem uma tradição de altos spreads, evitando a todo custo servirem de instrumento ao capital de giro das empresas. Vale lembrar que essas são instituições que objetivam tão somente resultados garantidos no sistema de depósitos interbancários, enquanto nas demais linhas de crédito, sua atuação é historicamente tímida e com riscos controlados.

Ainda que os juros tenham retomado a trajetória de alta, majoritariamente para conter a inflação, a insatisfação dos bancos passou a ser com as repercussões da crise. Os crescentes níveis de inadimplência e o aumento de devedores duvidosos fizeram com que os bancos rapidamente aderissem ao movimento de impeachment.

- A insatisfação da Classe Média

Na última década, o governo foi muito bem sucedido ao implementar políticas que garantiram o aumento da renda, do emprego, e de democratização do acesso ao consumo das populações mais pobres. Foram 30 milhões que saíram da linha da pobreza, com resultados econômicos positivos em programas como o bolsa família que, conforme auferido pelo IPEA, revertem ao PIB R$ 1,78 para cada R$ 1,00 investido.

O problema é que, apesar de ter democratizado a demanda, o Governo falhou em democratizar a oferta. Ou seja, a classe média não teve as condições necessárias para empreender, seja pela limitação do crédito, ou pela falta de capacitação.

O resultado desse processo, de rejeição do governo petista, está muito ligado a questões antropológicas e sociais. A classe média acabou por assistir a ascensão de seus empregados domésticos, a vê-los compartilhando aeroportos, seus filhos cursando curso superior através do FIES, a viajarem para o exterior. Esse ganho de direitos da classe mais pobre não fez bem a classe média que, apesar de não conseguir ascender a classe A, passou a não ter mais acesso a empregados domésticos, e a verificar o aumento competitivo de pessoas qualificadas no mercado de trabalho.

Há muito preconceito de classe nesse ódio ao PT. O que agravou-se ainda mais quando o preço do cambio teve sucessivos saltos, fazendo com que as viagens ao exterior, tão rotineiras e festejadas, tornassem-se escassas.

- A inabilidade da Presidenta e de sua equipe

Não é segredo que a composição do Governo para o segundo mandato não agradou a base aliada. Foram muitos os Ministérios relevantes ocupados por pessoas próximas a Presidente, que não possuem qualquer protagonismo político. Outro exemplo que demonstra que Dilma não estava preocupada em satisfazer os demais partidos foi a escolha de Katia Abreu como Ministra da Agricultura. A Senadora, apesar de muito competente na pasta, não possui grande influência dentro do PMDB governista, ao que muitos consideraram sua indicação uma afronta, e não um ponto positivo na composição ministerial.



Como pode ser verificado nos relatos acima, o cenário enfrentado pela Presidenta Dilma é de tempestade perfeita: uma conjunção de fatores políticos, econômicos e sociais adversos. Ainda assim, os adversários tiveram muita dificuldade em imputar-lhe qualquer crime, dada a honestidade e retidão de caráter da Presidenta. Lembrando que as duas primeiras peças de Janaína Pascoal e Hélio Bicudo eram imprestáveis, por tratarem de diversos assuntos da Lava-Jato, ainda em fase investigatória.

Somente após a entrada de Miguel Reale Jr. no processo, com a numeração dos decretos de créditos suplementares, algum caminho jurídico menos rídiculo foi traçado. Ainda assim, sem qualquer tipo de crime de responsabilidade, apenas manobras contábeis para garantir a execução do orçamento dos programas sociais e do financiamento a Agricultura.

Porém, engana-se quem pensa que Lula e Dilma não estavam em sintonia quanto ao enfraquecimento do PMDB, a pressão no sistema bancário, e a composição de um corpo ministerial mais técnico. Faz-se importante rememorar que, em meio a tantos pré-candidatos potenciais, Lula escolheu Dilma por saber da sua retidão de caráter, reconhecendo nela a pessoa dotada de moral para implementar as políticas de transformação mais difíceis, aquelas que tratam das questões fisiológicas. O problema foi a crise econômica internacional no meio do caminho.

Se não fosse a crise, certamente estaríamos vivendo num país politicamente melhor. Faltou sorte!

domingo, março 20, 2016

Duas Manifestações e um Sentimento de Urgência Imposta

Num intervalo inferior a uma semana, o Brasil assistiu a duas grandes manifestações populares: no domingo, 13/03/2016, manifestaram-se os opositores ao governo eleito da Presidenta Dilma Roussef, que pedem o seu impeachment, intervenção militar e o fim dos programas sociais.

Na sexta-feira, 18/03/2016, tomaram as ruas os defensores do governo, pedindo a manutenção das garantias legais, do estado democrático de direito e o fim, segundo os próprios, das aberrações jurídicas na investigação LavaJato.

Para a compreensão do atual cenário político do país, que transita entre vazamentos de investigação sigilosa e cobertura midiática tendenciosa, faz-se indispensável analisar friamente as características das duas manifestações.

São quatro as perguntas que considero importantes nesse processo de entendimento, conforme abaixo:

1 - QUANTOS MANIFESTANTES OCUPARAM AS RUAS?

Em se considerando todo o aparato estatístico do mundo moderno, essa deveria ser uma pergunta de fácil resposta. No entanto, dado o interesse político nesses números, existem 3 repostas possíveis para essa pergunta: a contagem dos Organizadores, a da Polícia Militar e a do Instituto Datafolha.

Os organizadores obviamente apresentam números extremamente superlativos, sem qualquer conexão com a realidade. O que é normal, em se tratando do interesse direto no sucesso da manifestação. Já a empresa Instituto Datafolha, embora tenha obrigação de ser imparcial, entrou em estado de suspeição, por conta dos resultados das pesquisas eleitorais de 2014.

No que se refere a Polícia Militar, que deveria ser o fiel da balança, acaba por ser a menos confiável dessas três. Isso porque, as polícias militares no Brasil estão sob o comando dos governadores de Estado, que tem mandato, partido e interesses políticos.

No caso de São Paulo, o Estado com maior número de manifestantes, o Governador é do maior partido de oposição ao governo, o PSDB.

Ainda assim, apesar das ressalvas, existem limites físicos e estatísticos para essas estimativas.

Nesse aspecto, vale o esclarecido pelo DataFolha: no caso da Av. Paulista, local em que ocorrem os protestos em São Paulo, não existe a possibilidade física de se colocar mais do que 500 mil pessoas. Essa é uma limitação matemática, que considera o espaço útil da avenida, por m2.

No entanto, de acordo com os opositores ao governo, foram 2,5 milhões de manifestantes no domingo; a Polícia militar estimou 1,4 milhão; e o DataFolha 500 mil manifestantes.

Bom, de início, descarta-se a quantidade dos organizadores e passa-se a analisar o número da polícia militar: 1,4 milhão de pessoas. Segundo o DataFolha, esse número seria impossível de se obter, pois significaria a assunção de que existiam 7 manifestantes por m2, em toda a área ocupavél da Av. Paulista, o que é fisicamente impossível.

Então, o número do DataFolha, limite físico máximo do local, pode ser considerado o correto. Ou seja, foram 500 mil pessoas na manifestação de domingo, a favor do impeachment da Presidenta Dilma Roussef.

No caso da manifestação favorável ao governo, na sexta-feira, o número dos organizadores era de 380 mil pessoas; da Polícia Militar, de 80 mil pessoas; e do Datafolha, 95 mil pessoas.

Para demonstrar que existem erros grosseiros nas estimativas da Polícia Militar e do Datafolha, utilizaremos uma foto aérea das duas manifestações em São Paulo:



Enquanto na manifestação de domingo (foto a direita), fechamos posição no limite máximo de 500 mil pessoas, não é razoável dizer que na manifestação de sexta-feira (foto a esquerda) estiveram presentes apenas 80 mil pessoas. Essa foi a estimativa da Polícia Militar de SP, do Governador Geraldo Alckmin, opositor ao governo.

Como pode a Polícia Militar, ao analisar a imagem acima, dizer que eram 1,3 milhão a direita e 95 mil a esquerda? Sendo que o limite máximo do local são 500 mil pessoas; e que, conforme esclarecido pelo Datafolha, para se ter 1,3 milhão de pessoas no domingo, também seria preciso que a Av. da Consolação estivesse totalmente tomada.

Percebe-se um erro grosseiro nesse tipo de estimativa, que não foi sequer criticado pela imprensa. Os números eram dados pelas emissoras com toda pompa, e um dos líderes da oposição chegou a dizer que as manifestações de sexta foram 13 vezes menores que as de domingo. Como seria possível?

A partir da análise fotográfica, acabamos por concordar com os organizadores do movimento de sexta-feira. Se haviam 500 mil no domingo, eram pelo menos 380 mil na sexta-feira. O que demonstra que as manifestações contrárias ao governo estão em mesma quantidade daquelas favoráveis, o que nos remete a uma situação de equidade entre os movimentos.

2 - QUEM CONVOCOU OS MANIFESTANTES?

Essa é outra pergunta importante, indispensável ao entendimento da situação política no Brasil.

A manifestação de domingo foi convocada por políticos da oposição; movimentos de direita, favoráveis a intervenção militar; a Federeção das Industrias de São Paulo (FIESP); artistas e jornalistas da grande imprensa.

Já a manifestação de sexta-feira, favorável ao governo da Presidenta Dilma Roussef, foi convocada por partidos políticos da base do governo; sindicatos de professores; movimentos sociais; a Central Única dos Trabalhadores; Escolas de Direito das maiores universidades do país; a União dos Estudantes (UNE); artistas e jornalistas independentes, que atuam em blogs.

A imprensa teve um papel muito importante na manifestação de domingo, porque as chamadas eram constantes e ao vivo. Os repórteres entrevistaram diversos integrantes da manifestação, que discursavam e conclamavam quem estava em casa a se unir aos manifestantes. Efeito de propagação eficaz, que os manifestantes favoráveis ao governo não tiveram na sexta.

No entanto, há uma distinção muito grave entre os dois movimentos: os políticos que convocaram a manifestação de domingo, o Senador Aécio Neves e o Governador Geraldo Alckmin, foram hostilizados pela multidão e tiveram de sair corridos do local. Enquanto, o principal articulador do movimento de sexta-feira, o ex-presidente Lula, foi conclamado pelos manifestantes, fez discursos e foi imensamente aplaudido pelos presentes na Av. Paulista.

Essa é uma situação extremamente crítica para a oposição, e não deve ser considerada uma vantagem para o governo. Quando uma manifestação de grande número quer um resultado político imediato, que é a deposição da Presidenta da República, rejeitando justamente os políticos da oposição, que estão a espreita para assumir o governo. o que se tem é um movimento imprevisível, que coloca em risco todo o sistema republicano e suas instituições.

A turma de domingo deixou clara a sua mensagem: quer fazer política sem políticos, e também pede intervenção militar. Algo que nos remete a uma página drástica da história do Brasil, o golpe militar de 1964.

3 - QUEM ERAM OS MANIFESTANTES?

Traçar o perfil dos manifestantes também é tarefa estatística. A manifestação de sexta-feira nos ajuda nesse quesito, uma vez que foi realizada em dia de semana, próximo ao fim do expediente de trabalho. O que nos leva a constatar que a maioria dos presentes eram trabalhadores.

No caso da manifestação de domingo, que teve metrô gratuito e filé mignon distribuído pela FIESP, faz-se necessária uma análise profissional, para melhor entender o perfil do manifestante.


Por essa razão, analisaremos os dados levantados pelo DataFolha, colhidos durante a manifestação de domingo, que foram publicados pela Folha de São Paulo.

De início, percebe-se que os manifestantes da Paulista no domingo não são amostra representativa da população brasileira, uma vez que 37% destes ganham acima de 10 salários mínimos; e que 77% tem curso superior. Enquanto apenas 6% dos manifestantes ganham até 2 salários mínimos, e apenas 4% estudaram até o ensino fundamental, renda e escolaridade da maior parcela da população brasileira.



O que isso nos mostra? Que os manifestantes da Av. Paulista, apesar de terem reunido 500 mil pessoas, não são amostra representativa da população brasileira. Ou seja, essa parcela da população não tem legitimidade para falar em nome do Brasil, pois não é composta proporcionalmente pela maioria da população.

Esse é um ponto importantíssimo, que não foi discutido pela grande imprensa, e que prejudica enormemente o entendimento das manifestações. Pois o movimento de domingo é claramente uma manifestação da elite brasileira, que teve seu candidato derrotado nas últimas eleições.

Infelizmente, não poderei contar com os dados do Datafolha para analisar a manifestação da sexta-feira, uma vez que o instituto não divulgou qualquer levantamento. Então, farei a comparação a partir da minha experiência pessoal, de quem compareceu aos atos no Rio de Janeiro.

Registro que a experiência na Praça XV foi extremamente tocante, do início ao fim. Eram estudantes, trabalhadores, artistas, movimentos sociais, políticos, jornalistas, aposentados, advogados e servidores públicos. Na visão de quem transitou pelo espaço o tempo inteiro, posso dizer que havia naquele local a diversidade de pobres e ricos, brancos e negros, analfabetos e doutores. Enfim, um quadro representativo do povo brasileiro.

Havia muita harmonia, solidariedade e cumplicidade entre os presentes. As pessoas se entreolhavam, sorriam, e muitos choraram. Haviam muitos outros olhos lacrimejantes.

4 - O QUE QUEREM OS MANIFESTANTES?

A pauta dos manifestantes de domingo recebeu ampla divulgação pela imprensa, e pode ser resumida nas seguintes demandas: o impeachment da Presidenta Dilma Roussef; intervenção militar; o fim dos programas sociais; o fim da corrupção; a prisão do ex-presidente Lula; e a queda do dólar (sic).

Há no Brasil uma clara confusão de causa e efeito na cabeça da população, que atribui ao governo os efeitos da retração econômica mundial, ignorando por completo a dependência da economia brasileira ao preço do petróleo, do minério de ferro, da atividade produtiva da China e das Commodities.

Contribui em demasia para essa confusão a atuação da imprensa, que não esclarece o contexto da crise mundial na qual o Brasil está inserido, preferindo repetir diariamente que a culpa é exclusivamente das políticas do governo da Presidenta Dilma Roussef.

Para uma população que, há pouco mais de uma década, ascendeu a classe média, esse é o maior combustível para a indignação e o desejo pela mudança de governo. Ainda mais, quando a grande imprensa repete diariamente que um novo governo poderia resolver a situação econômica do país.

O que não é verdade, uma vez que nossa melhora depende exclusivamente dos agentes econômicos externos. Enquanto, o que se pode mudar através da política de governo hoje é muito pouco, e se resume a um ajuste fiscal, que não resolverá a crise, mas tentará suavizá-la.

Também é verdade que o Presidente da Câmara dos Deputados, investigado por corrupção em diversos processos, nada fez para colocar em votação o ajuste econômico proposto pela Presidência. E, por incrível que pareça, ele não foi alvo das manifestações de domingo, que também se intitulam contra a corrupção.

Então, conclui-se que há uma grande confusão da parte dos manifestantes de domingo: que são contra a corrupção, mas não pedem a prisão do Presidente da Câmara; que querem a melhora da economia, mas não cobram do Congresso a votação do ajuste econômico; e que evocam direitos e democracia, mas pedem intervenção militar.

A pauta da manifestação de sexta-feira vem como que na contramão: pede o fim do que consideram excessos do Juiz Sérgio Moro; a rejeição do processo de impeachment da Presidenta Dilma Roussef no Congresso; a confirmação da nomeação do ex-presidente Lula à Casa Civil; o fim da exploração distorcida da situação do país pela mídia; o fim dos vazamentos de provas em processos sigilosos; e a manutenção das garantias individuais e do Estado Democrático de Direito.

Os reclames dos manifestantes de sexta surgiram da preocupação em relação ao andamento da operação LavaJato, que vaza constantemente a imprensa as delações contra o governo. Ato irresponsável, agravado pelo fato de que delação não é prova, e que só serve para incendiar a opinião pública.

A sucessão de vazamentos gerou um sentimento de desagravo as ações do Juiz Sérgio Moro, que atingiu seu ápice quando foram tornadas públicas as conversas do ex-presidente Lula, inclusive com a Presidenta da República. O Ministro Marco Aurélio somou sua voz a de diversos magistrados, que afirmaram que essas ações estão a margem da lei, ainda mais quando o processo deveria seguir em segredo de justiça para o STF.

Sem falar no frisson que causou a autorização de grampo no escritório de advocacia que defende os investigados, ferindo o direito ao sigilo na relação cliente-advogado. Medida inadmissível a uma democracia consolidada, e própria de regimes de exceção.

Todas essas ações demonstram uma clara ameaça ao Estado Democrático de Direito no Brasil, o que causa perplexidade a parcela esclarecida da população.

Em resumo, esses foram os motivos que levaram os manifestantes de sexta a pedirem a reforma da decisão que impediu a posse do Ex-Presidente Lula na chefia da Casa Civil, enquanto este não é sequer réu na justiça.

Independente das manifestações, a sensação que temos hoje no Brasil é de uma enorme insegurança jurídica. É um sentimento de urgência imposta, num momento de total desarmonia entre os integrantes dos três poderes, agravado pela perseguição midiática a um único partido político.

Ainda bem que tivemos a sexta-feira.