domingo, abril 26, 2015

Cultura no transporte público do Rio

Há sempre algo de importante na narrativa de uma volta pela cidade, na prática do convívio social.

Estava no Metrô do Rio neste sábado, a caminho de Ipanema, e me deparei com uma cena maravilhosa: na altura do Largo do Machado, um casal adentrou a composição, cada qual carregando seu instrumento musical.

O fato de não existirem assentos livres sempre cria uma expectativa numa situação como essa: afinal, o casal com instrumentos estaria apenas na condição de passageiro ou nos brindaria, entre uma ou duas estações, com uma apresentação instrumental?

Numa batida rápida, com muita desenvoltura, tivemos a resposta. As cordas dissonantes de um violão romperam o silêncio, num movimento executado com rigor pelo rapaz franzino, de barba cheia.

Para surpresa geral, o que se iniciou foi um jazz de notas marcantes, encorpado. Mas, a polirritmia só estaria completa com as blue notes da trombeta de sua parceira, uma morena simpática, de longos cabelos negros.

A forma sincopada e notas altas se encaixaram perfeitamente a postura humilde dos executores, trazendo um momento mágico a composição. A qualidade musical da dupla transportou-nos, por alguns segundos, ao berço do Jazz, na New Orleans negra. Impacto exagerado, que somente o jazz de qualidade consegue provocar.

Infelizmente, o espetáculo improvisado durou apenas duas estações. Na última canção, a de agradecimento, a voz rouca do violeiro, até então oculta, arrancou aplausos unânimes da plateia de passageiros. E foi nesse momento que olhei em volta e pensei: essa é realmente uma cidade maravilhosa, de riqueza cultural e social.

E por um instante sorri, ao lembrar que tramita na Alerj o Projeto de Lei 2958/2014, de autoria do Dep. André Ceciliano, que permitirá apresentações culturais nas estações de barcas, trens e metrô no âmbito do Estado do Rio de Janeiro. Ato que afastará do cotidiano a cena nefasta de seguranças correndo atrás de artistas nas plataformas; utilizando-se de uma truculência descabida e incoerente.

É importante esclarecer que, inicialmente, o projeto também autorizaria a apresentação dos artistas no interior dos trens e do metrô. No entanto, por força de uma emenda modificativa, de certo Deputado do PSDB (sempre eles), alterou-se o caput, vedando a possibilidade dos artistas se manifestarem legalmente dentro dos vagões.

Independente do alterado, o projeto é um avanço por permitir a apresentação nas estações, sem qualquer restrição ou imposição de regra da concessionária de transporte. Agora é torcer para que a comissão de cultura, que avalia o texto desde março/2015, devolva o projeto ao plenário, para votação. Destaca-se o fato de que o prazo de devolução, que versava sobre o dia 01/04/2015, encontra-se ultrapassado, sem qualquer parecer emitido.

Para os que tiverem interesse em acompanhar o trâmite, segue o link do projeto na página da Alerj: http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/scpro1115.nsf/0c5bf5cde95601f903256caa0023131b/c3b365ce09cc856783257cd00055c377?OpenDocument&Highlight=0,2958

Ficaremos na torcida para que o texto seja aprovado; e ansiosos para que essas manifestações artísticas se multipliquem nas plataformas de trens, metrô e barcas do nosso Estado. Estruturas que, diga-se de passagem, foram construídas com o dinheiro e suor do contribuinte.

Aprovem, Deputados! Nós, a população, agradecemos.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Sem hora marcada...

Faz tempo que não escrevo aqui. A verdade é que já ensaiei tanto o retorno a essa escrita, que não sei se deveria fazê-lo sem a motivação adequada.

Inicialmente, esse era um espaço para a discussão daquilo que acreditava justo, coerente, honesto e digno; uma resenha idealista que considero insuportável atualmente. O mundo de verdade não nos permite ser assim. Foram algumas horas, durante anos, transcrevendo meus pensamentos sobre fatos sociais que considerava relevantes.

Depois de tanto tempo, ao reler esses posts, não encontro em mim a pessoa que os criou. Em vez de tentar descobrir o que se perdeu, e como se perdeu, prefiro iniciar algo novo. Uma escrita nova, principalmente.

Hoje minha "metralhadora cheia de mágoas" está descarregada. Confesso que minhas decepções políticas ainda doem um pouco. Mas é algo de momento, uma assombração de pouca intensidade. Talvez, escrever aqui tivesse me ajudado em certos momentos nos primeiros anos do ocorrido. Mas, não me parecia uma opção à época; como não me parecia há 2 horas.

Mas, não é sobre isso que escreverei aqui. O passado é tórrido, mórbido e mordaz. Esquecê-lo é a saída menos dolorosa, sempre.

No entanto, eu realmente estava curioso em saber se ainda conseguia escrever com velocidade. Constato pasmo que cheguei a esta linha em apenas quatro minutos, de forma ininterrupta. Isso definitivamente me agradou.

Não tenho a menor intenção de descrever-me em quaisquer linhas. "Rien de rien", parafraseando Édith Piaf. O culto à babaquice da autopromoção é um desperdício de vida, um insulto a inteligência e atenção alheia.

Perceber como isso é chato e inconveniente me parece uma dádiva hoje, uma verdadeira evolução.

Muitas coisas mudaram nos últimos anos, ao que foram fartos os momentos de felicidade, ansiedade e tristeza. O cotidiano nos afasta das amizades antigas; sentimos falta de muitas coisas, de pessoas e até mesmo de discussões. 

Mas, a verdade é que cada um segue o seu caminho, vive dificuldades e dilemas. Assim é o mundo. Seria ótimo e péssimo se não houvessem mudanças.

Un attimo de lucidez e me pego a pensar nos problemas de amanhã: nos prazos e execução de projetos, nos contratos por revisar, nas planilhas de orçamento por ratificar... É tudo tão pesado, oneroso e arbitrário que, para minimizar o cenário, lembro de Salvatore Cacciola e das linhas de seu livro "...".

Levantei e procurei o livro na estante; lendo e relendo todos os títulos. Duas vezes! Não está lá! Como é possível? Me preocupo, repenso, relevo e contemporizo. Não tem problema.

Voltando ao conteúdo do livro de Cacciola, é certo que sempre quis comentá-lo. É um bravo relato de como uma política monetária predatória e a assimetria de informação podem derrubar um homem e consumir o patrimônio da sua vida.

É certo que Salvatore foi o bode expiatório para o lucro bilionário de poucos banqueiros e integrantes do Governo. A CPI, o MPF e a PF, todas essas maravilhosas instituições soberanas, só investigaram o homem que quebrou.

Os que lucraram bilhões da noite para o dia nunca foram investigados. Como entender essa lógica perversa do Brasil de FHC? É como diz a turma que brada o nome de Joaquim Barbosa, corrupta é a Dilma! Só não conseguem apontar um único indício de corrupção da Presidenta. Covardes!

Nesse instante, percebo que o texto tornou-se uma das minhas muitas conversas notívagas. Momentos em que falo comigo mesmo, com minhas angustias e consciência.

Nesse instante, sinto vontade de escrever sobre política. Só para defender o Zé Dirceu e calar a boca dessa gente idiota que reduz a cidadania ao senso comum de mocinho e bandido. E eu poderia escrever horas sobre isso. Desisto, perdi a vontade. O senso coletivo brasileiro é desestimulante.

Para finalizar o assunto, registro a seguinte percepção: O sistema republicano brasileiro é falido. Não é possível mudar o "status quo" de maneira democrática, ainda mais quando seus oponentes tem a certeza de que não poderá fazê-lo mantendo a ética. Você falha e destrói a esperança de milhões; desmistifica os reformistas e devolve o poder aos inimigos do povo. A partir dessa lógica, entendo o Zé Dirceu: não existia outro caminho.

Olho para todos os cantos do quarto, como que procurando algo, e acabo por fixar o olhar no blazer pendurado. É o de corte Italiano, aquele de que tanto gosto. Estou cansado. Essa conversa continuará em outra hora.

terça-feira, maio 04, 2010

Gente estúpida, gente hipócrita...

Eu tenho vergonha da imprensa do meu país! Decidi começar esse artigo com uma frase impactante, que traduz exatamente a indignação que toma conta da minha consciência quando leio os periódicos da grande mídia brasileira. A verdade é que, no Brasil, uma imprensa tão marrom como a de hoje, não existe desde a morte de Carlos Lacerda. E isso é lastimável! Salvo honrosas exceções, tudo o que se publica hoje possui uma segunda intenção tão gritante que dá nojo.

No mês de abril, tivemos a primeira demonstração de como a mídia irá se comportar durante o processo eleitoral: ao terem ciência de que, segundo a pesquisa Vox Populi, Dilma Roussef estaria em empate técnico com José Serra, os grandes meios de comunicação decidiram não noticiar o fato. Isso porque, a pesquisa Vox Populi contrariava a surpreendente vantagem obtida por José Serra na pesquisa Datafolha. Esse foi um silêncio covarde, que manchou a honra das redações dos jornais de todo o país.

Na mídia impressa, não há discussão: a revista VEJA é unanimidade. Suas publicações são tão fantasiosas, que nem Jules Verne seria tão criativo. Sua redação já não exerce liberdade de criação, está fielmente condicionada aos interesses de seus patrões. E estes estão claramente dispostos a tudo para atingir seu objetivo político, tanto que chegam a adentrar no gênero ficcional, com narrativa de literatura folclórica.

Em suas páginas, encontramos seres que só poderiam existir mesmo na ficção, como o Diogo Mainardi. "Jornalistas" que não se envergonham de utilizarem-se de qualquer preceito esdrúxulo para destruir a imagem do governo e de sua candidata à sucessão; através de crises que eles sabem que são hipócritas, falsas e eleitoreiras, pois tratam como novidade práticas republicanas seculares.

Não aguento mais ver tanta injustiça, tanta mentira, tanta esbórnia e irresponsabilidade com o futuro do país.

Infelizmente, essa é a nossa imprensa: desprovida de ética e totalmente comprometida com o conservadorismo, que é o modelo absorvido pela classe média brasileira. Uma das poucas classes médias do mundo em ascenção que é fraca, preconceituosa e tem péssima formação educacional.

Mesmo assim, e isso é o pior de tudo, esse pessoal se acha bem informado às custas de "O Globos", "Folhas", "Épocas" e "Vejas"; e se acha elite, adotando comportamentos e idéias de comentaristas da mídia.

Já a elite de verdade, o clube bilionário desse país, é o que temos de pior: é racista, canalha e egoísta. E, por mais que tente disfarçar, nutre ódio pelo presidente operário. Passou 8 anos indignada por ser governada por ele, por tê-lo em um lugar que sempre foi de um dos seus.

Essa elite é o retrato da decadência: pobre de cultura e formação, composta por herdeiros de corruptos que se julgam nobres. Uma gente de ambição desmedida, sem percepção estratégica, que ainda não percebeu o óbvio, elucidado por Gilberto Freyre ainda em 1933: que se quiser continuar a habitar a casa grande, precisa, no mínimo, deixar a senzala comer um pouco melhor.

Estou indignado com tanta mediocridade e maucaratismo, cansado de ver o Brasil retroceder em valores e ética a cada governo de direita. É triste e ultrajante a percepção de que o progresso democrático em nosso país contraria os interesses de meia dúzia de poderosos; e que eles são capazes de tudo para impedí-lo. Isso porque, possuem uma ganância maior do que o tempo que terão em vida para aproveitar as vantagens de sua perversidade.

Esse artigo é um desabafo, um grito estridente de quem está cansado de agir corretamente, de seguir os bons modos, o politicamente correto e, olhando em volta, ver o triunfo dos canalhas sobre o homem de bem ser noticiado como apoteose, por uma imprensa estúpida e hipócrita. É como disse Ella Wheeler Wilcox: "Pecar pelo silêncio, quando devemos protestar, nos torna covardes”.

Aos amigos,
o silêncio de minha espera,

Marcos André Ceciliano

sábado, abril 11, 2009

Lindberg apoia Casula!

Recebi via e-mail uma carta do prefeito Lindberg Farias, desmentindo seu apoio à candidatura de Bismarck Alcântara à presidência estadual do PT. Apesar de ser uma desmentida, o prefeito foi cordial, destacando reconhecer os valores éticos e morais do companheiro Bismarck. No entanto, fez questão de declarar apoio ao candidato Lourival Casula.

Bom, já estive com Lourival em duas oportunidades. Em uma delas, um jantar de poucas pessoas, quando da sua candidatura à câmara municipal, conversamos bastante. Destaco em sua personalidade a sobriedade e a propriedade na hora de dissertar sobre os diversos assuntos da esfera política e econômica. Casula é sem dúvida uma pessoa preparada, justa, capaz de lidar com as diversas lideranças petistas de nosso estado. Hoje, não há nada de que o PT precise mais: reestabelecer a condição de partido único, que respeita as divergentes correntes de sua composição.

Segue abaixo a carta do prefeito Lindberg:

Aos amigos,
a unidade partidária,

Marcos André Ceciliano

sexta-feira, abril 03, 2009

O plano de Geithner

A proposta de US$500 bilhões para salvar os bancos, anunciada pelo Tesouro Americano, foi elogiada por muitos analistas de Wall Street e classificada como triplo ganho. Na verdade, essa é uma proposta ganho-ganho-perda: os bancos ganham, os investidores ganham e o contribuinte perde. E não é difícil chegar a essa conclusão.

Segundo o plano, o tesouro americano espera solucionar a crise replicando os procedimentos arriscados do setor privado, com uma proposta altamente complexa, com poucos incentivos e pífia transparência. Sem falar que o patrimônio público será fortemente desalavancado.

A verdade sobre essa crise é que os bancos deixaram toda a economia vulnerável quando decidiram se alavancar. Utilizaram pouco capital próprio e se endividaram muito para comprar ativos de alto risco do mercado imobiliário. Para piorar, no decorrer do processo, ainda se utilizaram de instrumentos de alta complexidade, como obrigações de débito colateralizadas.

A projeção de alta compensação deu aos banqueiros incentivos para ignorar e subestimar o risco excessivo. Os bancos cometeram todos esses erros, alheios a qualquer fiscalização. Mesmo porque, a maior parte dessa negociação era financiada fora da folha de balanço.

Na teoria, o plano do governo Obama baseia-se em permitir que o mercado determine o preço dos ativos podres dos bancos, incluindo empréstimos para a compra de casas e derivativos desses empréstimos. Na verdade, o mercado não irá precificar os ativos, mas as opções desses ativos.

E o problema reside exatamente nesse ponto, por conta da inexistência de garantias vinculadas. Dessa forma, o plano do governo resume-se a absorver quase todas as perdas, uma vez que, os investidores privados superestimarão os ganhos potênciais.

Considere um ativo que tem 50% de chances de valer entre zero e US$ 400 em um ano. O valor médio desse ativo é de US$ 200. Sem levar em conta os juros, esse é o preço do ativo em um mercado competitivo. É quanto o ativo vale. Segundo o plano do secretário do Tesouro Americano, Timothy Geithner, o governo financiará 92% do dinheiro para a compra do ativo, mas espera receber apenas 50% de qualquer ganho, e absorverá quase todas as perdas.

Digamos que em uma das parcerias público-privadas, o Tesouro se comprometa a pagar US$ 300,00 pelo ativo. É 50% a mais do que ele realmente vale, e o banco estará mais do que feliz ao vendê-lo. Então, o parceiro privado coloca US$24, e o governo financia o resto: US$24 em “equity” mais US$252 em forma de empréstimo garantido.

Se acontecer de o valor real se tornar zero, o parceiro privado terá perdido US$24, e o governo terá perdido US$276. Se o valor real tornar-se US$400, o governo e o parceiro privado dividirão US$148, que restará depois que o empréstimo de US$252 for pago. Nesse cenário, o investidor privado mais do que triplica seu investimento de US$ 24. Enquanto o contribuinte terá arriscado US$ 276, para ganhar US$74.

Mesmo em um mercado imperfeito, não deveria existir a confusão entre o valor de um ativo e o valor da opção em alta desse ativo.

Mas, os americanos perderão muito mais do que sugerem esses cálculos, por conta de um efeito chamado seleção adversa. Segundo o plano, os bancos poderão escolher os ativos que desejam vender. Logo, escolherão os piores e, especialmente, aqueles que o mercado superestimar.

A única maneira de neutralizar esse efeito de "seleção adversa" é incorrer em muitas perdas. Com o governo absorvendo as perdas, não importa para o mercado se os bancos estarão "trapaceando" ao vender seus ativos mais depreciados, porque, o governo bancará o custo.

O problema principal dessa crise não é a falta de liquidez. Se o fosse, a solução seria fornecer os fundos sem garantias de empréstimos. A verdadeira questão é que os bancos fizeram maus empréstimos em uma bolha e foram altamente alavancados. Eles perderam o seu capital, e este capital tem de ser substituído.

Por essa razão, pagar o valor de mercado justo pelos ativos não funcionará. Os bancos só serão recapitalizados se o valor pago por esses ativos for superdimensionado. No entanto, fazê-lo, será o mesmo que transferir a perda para o estado. Em outras palavras, o plano de Geithner só funciona se o contribuiente perder muito.

Alguns americanos temem a nacionalização dos bancos. No entanto, essa opção deveria ser preferida ao plano de Geithner. Mesmo porque, a Federal Deposit Insurance Corporation já obteve o controle de bancos falidos em outros tempos e realizou um ótimo trabalho.

O que muitos conservadores não perceberam é que o plano de recuperação da administração Obama é pior do que o processo de nacionalização. É um capitalismo promíscuo, que privatiza os ganhos e socializa as perdas. É um tipo de paternalismo em que uma parte é beneficiada em detrimento de outra, que preserva os incentivos aos que criaram a crise.

Então, qual é o apelo de uma proposta como essa? Talvez, esse seja o tipo de solução à la Hegel que Wall Street ama: complexo e obscuro, permitindo transferências enormes de dinheiro saudável para os mercados financeiros.

No entanto, estamos prestes a enfrentar uma grave crise de confiança. Isso porque, quando os altos custos dos planos da administração Obama se tornarem aparentes, a confiança será diluída. Nesse momento, a tarefa de recriar um setor financeiro eficaz e ressuscitar a economia, será ainda mais difícil.

Aos amigos,
sincerità de Arisa,

Marcos André Ceciliano

sábado, janeiro 24, 2009

Estou aqui porque me importo!

Está difícil sorrir, ficar alegre com acontecimentos cotidianos. Tenho olhado o mundo com um ceticismo tão grande que chega a ser assustador. Há quatro dias não consigo esquecer as palavras de uma jovem sonhadora, uma americana de classe média alta, que poderia ter escolhido os caminhos mais cômodos em seu mundo de privilégios, mas que, contrariando a tudo o que lhe foi definido por seu círculo social, juntou-se ao Movimento de Solidariedade Internacional, na Faixa de Gaza.

Sim! Estou falando de Rachel Corrie. Sua morte ficou famosa em 2003, quando de uma matéria no New York Times. Rachel foi assassinada pelo exército de Israel, por um operador de uma Caterpillar D9R, que estava sendo utilizada para demolir casas na cidade de Rafah.

Após o acontecido, muitos membros do Capitólio questionaram o porquê de uma jovem americana de 23 anos estar na Faixa de Gaza, em uma área tão perigosa que nem mesmo a imprensa se fazia presente.

Um vídeo de Rachel, aos 10 anos de idade, é a melhor resposta a essa pergunta:



Traduzi a fala para os que não entendem inglês:

Estou aqui por outras crianças.
Estou aqui porque me importo.
Estou aqui porque existem crianças sofrendo em todos os lugares e porque 40 mil pessoas morrem diariamente de fome.
Estou aqui porque a maior parte dessas pessoas são crianças.

Nós temos que entender que os pobres estão a nossa volta e nós os estamos ignorando.
Nós temos que entender que essas mortes podem ser evitadas.
Nós temos que entender que as pessoas dos países do terceiro mundo pensam, se preocupam, sorriem e choram exatamente como nós.
Nós temos que entender que eles são nós. E nós somos eles.

Meu sonho é acabar com a fome a partir do ano 2000.
Meu sonho é dar aos pobres uma chance.
Meu sonho é salvar 40 mil pessoas que morrem diariamente.
Meu sonho pode e se tornará realidade se todos nós olharmos para o futuro e enxergarmos a luz que brilha lá.


Rachel Corrie morreu na tentativa de impedir, pacificamente, a demolição de casas humildes em uma região pobre da Faixa de Gaza. Em uma entrevista a uma rede de TV local, pouco antes de morrer, questionou o apoio dos EUA ao exército de Israel e bradou ao povo americano uma frase muito forte: "this is your tax dollars at work".

Durante o ato que resultou em sua morte, suas únicas armas eram um megafone e a retórica de sua solidariedade. Ao perceber que estava sendo ignorada pelo operador da escavadeira, deitou-se no chão para impedir o avanço da máquina sobre as casas.

Segundo relatos, as ordens do comandante ao soldado que procedia a derrubada foram claras: "passe por cima de quem estiver no caminho". Rachel não acreditou na insensatez daquele ser humano, na imprudência de sua consciência. Foi massacrada pela máquina, que passou por seu corpo várias vezes.



Rachel Corrie, como milhares de palestinos, é mais uma vítima das atrocidades cometidas pelo criminoso governo de Israel. Muito pior, é mais uma vítima do descaso da comunidade internacional pelo assunto.

Espero que Barack Obama reveja o caso Corrie, que tenha uma postura mais decente que a do Congresso Americano. Mesmo porque, até hoje, nenhum soldado do exército de Israel respondeu pelo ocorrido.

Aos amigos,
o silêncio dos inocentes,

Marcos André Ceciliano

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Votorantim está pagando um absurdo pela Aracruz.

O grupo Votorantim, terceiro maior fabricante de celulose do país, está pagando muito caro pelo controle acionário de sua rival, a Aracruz Celulose. Ainda que o BNDES tenha financiado 40% do negócio, esqueceram de levar em conta o custo do mesmo para os acionistas minoritários.

Hoje, na Bolsa de São Paulo, as ações preferênciais da VCP, como é conhecida a empresa de celulose da Votorantin, caíram 10,40%, chegando a R$ 13,95. As preferências da Aracruz recuaram 12,77%, atingindo R$ 2,05.

Ontem, a VCP anunciou que realizará um aporte de R$ 2,71 na Aracruz, o que acarretará na tomada do controle acionário, que estava programado para ocorrer ano passado, antes da crise financeira. Nesse período, as duas empresas amargaram prejuízos substanciais por conta de operações cambiais ligadas a derivativos.

Não existem dúvidas de que a transação será onerosa aos acionistas preferências minoritários das duas empresas. E a razão para a perda de valor das PN's é simples: os investidores que possuem ações PN da VCP e da Aracruz, terão seus ativos diluídos quando estas forem convertidas em ações comuns da nova empresa. Para piorar, a VCP planeja listar a nova empresa no Novo Mercado, uma sessão da Bovespa que possui regras rígidas de governança corporativa e proíbe mais de uma classe de ações.

Em contrapartida, o acordo deve ser considerado um achado para as famílias Lorentzen e Safra, que receberão, em dinheiro, um preço por ação definido há 6 meses, antes dos prejuízos com derivativos.

A Arapar, controlada pela família Lorentzen, concordou em vender sua participação de 28% da Aracruz para a VCP. A mesma proposta foi enviada para a Arainvest, que detêm 28% das ações ordinárias da Aracruz e é controlada pela família Safra.

E o governo Lula? Quantas operações estranhas! Primeiro, o governo salvou o banco Votorantim. Agora, o BNDES financia 40% da compra da Aracruz e sai do negócio sem uma única cota de participação da nova empresa. Seria esse o nosso Bailout ao grupo Votorantim? Um tanto injusto para com o contribuinte, não acham?

Aos amigos,
fiquem longe do mercado,

Marcos André Ceciliano

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Amanhã há de ser outro dia...

No decorrer dos anos, existem muitos momentos que nos marcam profundamente. No entanto, raros são aqueles que conseguem resistir, em qualidade de detalhes, ao contínuo amadurecimento da consciência.

Lembro a primeira vez em que entrei no Palácio Tiradentes, sede do plenário da Alerj. Eu tinha 9 anos. Cruzei toda a platéia de mãos dadas com meu avô, vestia um terninho preto com uma gravata de seda vermelha. Não me assustei ao passar por todas aquelas pessoas. Nos sentamos em uma das primeiras fileiras. Era 24 de fevereiro de 1994. Nesse dia, assisti uma bonita e justa homenagem: meu tio, empresário do mercado financeiro na época, recebia o título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, concedido pelo Deputado Estadual Délio Leal.

Em 1998, meu tio, eleito Deputado Estadual, assumiu uma cadeira naquela casa. No ano seguinte, ingressei no Cap da UFRRJ. Meu professor de história era um petista histórico, que participou de diversos movimentos armados durante a ditadura. Nossa afinidade era inegável, devo a ele toda a paixão e curiosidade que desenvolvi pela matéria. Porém, foi justamente com esse professor que experimentei minha primeira liberdade crítica.

Poucos meses após o início do mandato, a vice-governadora Benedita abandonou o governo, por conta de insatisfações relativas a distribuição de cargos. Para fazer frente, a bancada do PT decidiu que votaria contra as propostas do governo que fossem encaminhadas à Alerj. Meu tio foi o único deputado que descumpriu a ordem do partido e votou com o governador em todos os projetos.

Essa atitude causou profunda irritação em muitos petistas, meu professor não foi excessão. Em uma discussão sobre política contemporânea e estratégia legislativa, ele aproveitou a oportunidade para criticar sua postura. Ao que não me contive e repliquei: "Não existe traição aqui. O mandato do deputado não é do partido ou da bancada do PT, e sim de 19.122 cidadãos que lhe confiaram o voto. Meu tio não deixará de votar projetos importantes para a população só para fazer pressão por cargos no governo. E eu tenho muito orgulho disso, para um deputado de primeiro mandato essa é uma atitude muito digna e corajosa."

Pelo sorriso de canto no rosto do meu professor, eu havia tocado no ponto certo. Ou seja, havia transposto a hipocrisia que nos rodeia e, dito algo que, de tão justo, era irrefutável. Eu sinto falta desse tempo. Sinto falta desse meu eu, de ter pensamentos puros e idealizados sobre a política. Nos últimos 10 anos, uma série de eventos dizimaram essa minha percepção.

Alfred Lord Tenysson, um dos mais incríveis poetas ingleses, escreveu certa vez: "Authority forgets a dying king". Nos últimos dias, tenho refletido bastante sobre essa frase. Ela é de uma verdade absurda e assustadora. É triste a constatação de que os traidores se vestem da postura e grandeza dos nobres. Infelizmente, não entendem o que realmente significa estar ali.

Aos amigos,
"apesar de você" do Chico,

Marcos André Ceciliano

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Um novo tempo para os EUA...

No dia 20 de janeiro de 2009, quando Barack Obama assumir o governo americano, encontrará a pior situação econômica daquela nação desde a segunda guerra mundial. Nos últimos meses, as projeções dos principais índices macroeconômicos foram revisadas drasticamente, para baixo.

Muitos economistas acreditam que a taxa de desemprego possa atingir a marca de 10% no próximo ano; também estimam que a economia perca US$ 1 trilhão de sua capacidade total, o que significaria uma perda de US$ 12 mil na renda da família média americana.

Apesar das projeções assustadoras, a equipe de Obama ainda acredita no potencial de crescimento da economia no longo prazo. Segundo Summers, planejam investimentos estratégicos em saúde, educação e infraestrutura. Por conseguinte, esperam obter um ótimo retorno social, que minimizaria o efeito da perda de renda.

Existe uma dualidade interessante aqui. As decisões econômicas devem contemplar dois cenários para serem realmente eficazes: a criação dos empregos que os americanos precisam e o estabelecimento de um macroregulatório sustentável. Caso contrário, serão perigosamente deficientes.

A equipe econômica de Barack Obama já mostrou comprometimento para com essas condições. Essa é a justificativa para a instituição do "American Recovery and Reinvestment plan", que objetiva a criação de empregos e a garantia da saúde financeira no longo prazo.

As metas de criação de empregos já foram revisadas duas vezes. Agora, a equipe do novo presidente estima 3 milhões de novos empregos. Segundo Summers, mais de 80% destes seriam criados no setor privado. Daí, chegamos a uma interessante constatação: o plano de Obama não apresenta a criação de novos empregos públicos, apenas investimentos para o povo americano.

Recursos que serão transformados em novas salas de aula, laboratórios e bibliotecas para as crianças; que reduzirão a dependência americana frente ao petróleo, no incentivo de energias alternativas; e que colocarão milhares de americanos trabalhando na renovação de estradas, pontes e sistemas públicos de trânsito.

Alguns amigos economistas acreditam que para conseguir crescimento sustentável no longo prazo, o governo Obama deveria apenas preocupar-se em aumentar o consumo. No entanto, transformar o caos atual em uma questão tão simplista, seria, indubitavelmente, uma desculpa para permitir o esmagamento da classe média americana. Algo que o novo presidente americano parece não aceitar!

Aos amigos,
um feliz ano novo,

Marcos André Ceciliano

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Solução: inflação! Como assim?

Com o corte de 0,75 p.p. anunciado na última terça-feira pelo Fed, muitas pessoas devem estar questionando se os mecanismos de intervenção do BC americano chegaram ao fim. Uma ótima pergunta! Obviamente, a próxima atuação da autoridade monetária não será através de cortes de juros. No entanto, ainda há muito o que o FED possa fazer.

O que acabo de enunciar está ratificado na seguinte passagem do press release do Fed:

"The Federal Reserve will employ all available tools to promote the resumption of sustainable economic growth and to preserve price stability. In particular, the Committee anticipates that weak economic conditions are likely to warrant exceptionally low levels of the federal funds rate for some time."

A frase "for some time" é estratégica, perfeita para garantir expectativas de juros baixos a longo prazo.

O próximo desafio do FED é derrubar a retórica da "estabilidade de preços". Na verdade, o FED nunca esteve comprometido com a estabilidade de preços, ao contrário do que a maioria possa imaginar. Ainda assim, a inflação durante os mandatos de Paul Volcker e Alan Greenspan sempre tiveram médias entre 2% e 3%. Prova disso é que, durante esse período, o FED poderia ter zerado a inflação se quisesse. Com a atual crise e a profunda redução nos juros, esse zero é uma possibilidade, sem falar do risco de ocorrer deflação continuada. Hoje, o FED precisa atuar para convencer as pessoas de que essa taxa voltará ao índice "normal", entre 2% e 3%.

Elaborei abaixo uma boa sugestão para o próximo press release do FED:

"Na presente circunstância, o comitê reconhece que seria desejável uma inflação moderada sobre o nível geral de preços de uma década, que precisa ser cerca de 30% maior do que o de hoje. Por conta disso, manteremos a postura da política monetária suficientemente parcimoniosa para atingir esse grau de inflação ao longo dos próximos dez anos.

Ou seja, ainda que o FED não possa reduzir a taxa de juros nominal, poderá atuar para a redução da real, incorrendo em um modesto aumento no índice inflacionário.

Alguns podem classificar esse ato como uma mudança radical na política monetária. No entanto, dado o enfraquecimento atual da economia, um pouco de radicalismo certamente geraria algum efeito positivo. Sinceramente, prefiro o FED comprometido com o target de uma inflação modesta, do que ver o governo americano desembolsando um trilhão em novos gastos. Por essa razão, a política monetária deve ser priorizada, não a fiscal. Porque, apenas dessa maneira, a economia retornará ao pleno emprego e voltará à trajetoria de crescimento sustentável sem onerar os futuros contribuintes americanos.

O abandono da "estabilidade de preços" é o equivalente moderno ao abandono do padrão ouro por Rossevelt. Mesmo porque, dentre todas as medidas tomadas por Rossevelt para tirar a economia da recessão, o abandono do padrão ouro foi a mais bem sucedida. Hoje, a política monetária americana não é guiada pelo ouro, ou pelo medo da inflação. Por isso, os norte-americanos devem esquecer esse medo, pelo menos por um tempo. É como Jim Tobin disse certa vez: existem coisas piores que a inflação, e os EUA está infestado delas.

Aos amigos,
o novo disco do The Verve,

Marcos André Cecilino